quarta-feira, 27 de maio de 2020

Antologia Selo OFF FLIPP 2020



Crônica ENTREMEIO, selecionada para a Antologia PAREM AS MÁQUINAS  do

                                               SELO OFF FLIPP 2020

ENTREMEIO
Alguma coisa tenta tomar forma entre o barulho da máquina de lavar e o latido do cão. Esse intervalo é elástico, ora é chão batido, ora é  terra solta. Semeei arroz e malhei trigo nesse sem fim. Fora boa a colheita. Era tempo de espigas. Era, também, tempo do menino Chico do Sol, sempre entretido  com as vozes e visões que só a ele se dirigiam.
Nesse mundo, só do Chico, por ele criado e mantido, as pedradas dos meninos cruéis não o  alcançavam. A realidade é sempre um risco para quem é diferente.  Ir pelas brechas é prova de argúcia e não de escape. Tenho aprendido a beleza calma dos atalhos,  por eles me embrenho sem cerimônias. Nas brechas é sempre trégua. Os impossíveis dos dias aí se ocultam. Lição de Chico que guardei  e recapitulo. Receba minha longa saudade, Chico,  que me ensinou pegar sol com a garrafa.  Ah, meu amigo, ainda recolho sol e vou vivendo até a hora de voltar pra casa. O tempo tudo mói, tudo esfarela.
  No morro da calha os irmãos das estrelas distribuem coisas valiosas. Pego um ramo de luz pra fazer espadas resplandecentes e cortar com elas  sombras malfazejas. Também pego alguns grãos de vidência que me permitam tomar distância da treva densa, dos enganos em cascata que afastam alegrias finas de viver e amar, limpamente falando.
Certos equívocos não se cometem mais aos sessenta anos, como por exemplo,  cair em sim quando o certo é desenhar não. Neste tempo da existência não são permitidas máscaras de nenhuma procedência. Arranquemos os cravos das ferraduras. Viva a liberdade!
 As coisas que acontecem entre o canto do grilo e o apito do trem cabem na pedra do teu anel, Maria, resumidas as entranhas dos fatos. Anéis podem guardar pós venenosos no lado direitos ou esquerdo. Alguns são verdadeiras canastras e causam-me espécie e arrepio.
 Quando voltar, Maria, venha me ver. Ainda moro num caroço de pêssego e faço saraus para as estrelas. Traga uns versos, vamos entoar  nossos cantos de vida e morte. Refugiemo-nos na poesia, pois o entorno está em chamas e não sabemos o que vai brotar das cinzas.
Eloí E. Bocheco
Novembro de 2018

domingo, 24 de maio de 2020

Morar na Àrvore


A ÁRVORE DE DINÁ

Texto selecionado para a Antologia do Prêmio SESC de Contos Infantis Monteiro Lobato - 2016

Diná passa tanto tempo na árvore que, às vezes, a mãe dela brinca: “ só falta você levar a cama para lá”. Na verdade, Diná nem precisa levar a cama porque há um galho muito gentil, onde ela se deita de todo comprimento e finge que é cama. Ela já caiu desse galho, certa vez. Pensaram que ela, pós-tombo, pós hospital iria dar tchau à morada na árvore. Não deu. Esse foi o único tombo que ela caiu durante o longo tempo de árvore. A árvore? Um pé de uva-japão que oferta frutos açucarados no outono.
   Os habitantes da árvore parecem adivinhar que Diná não pode ouvir os sons do mundo. Bem-te-vis, sanhaços, canários, rolinhas inventam voos para Diná se admirar. Pousam na ponta do nariz dela, na palma da mão, nos cabelos, nos ombros. Surgem, de repente, de um lado que ela não espera e fazem volteios no ar para a encantar. Pousam em bandos na copa da árvore. Viram um chapéu de passarinhos sobre a cabeça de Diná.
O chapéu é breve, breve é o instante. Ela festeja o chapéu enquanto ele não vira voo outra vez.
   Sempre a mãe vem à varanda olhar Diná no meio da ramagem. Faz sinal para filha tomar cuidado para não cair. A mãe acredita que, embora os ouvidos não possam ouvir os sons, a alma ouve e os guarda em algum lugar.
  Do alto da árvore, a casa creme, no fim da estrada, parece um navio. No navio mora uma mulher sinistra. Ela envenena os cachorros que se aproximam do navio. A menina que mora no navio brinca com Diná quando a dona do navio está viajando.
   Os meninos tinhosos se divertem correndo atrás de Diná armados de garfos. Mas na árvore eles não sobem porque ela ameaça empurrá-los tronco abaixo. Eles cansam de esperá-la descer e vão-se embora com seus garfos malignos.
   Diná se admira das nervuras nas folhas da árvore. Põe uma folha na palma da mão e examina. Parecem as linhas da mão. Parecem caminhos. Lembra de um livro de imagens em que um esquilo se vê diante de  vários caminhos. Qual deles escolher? O caminho do esquilo ela sabe, o livro contou. As linhas da mão, as linhas da folha, ela não sabe pra onde vão.
   A tia sabe ler mãos e disse que viu raízes fundas nas mãos de Diná. Só podem ser raízes de árvore – dissera a menina. Será que, da mão, pode nascer árvore? Diná ia perguntar, mas a tia voltara à máquina de costura.
   O louva-a-deus mora próximo ao galho onde Diná gosta de sentar e ficar com as pernas flutuando no ar. A mãe mostrou um louva-a-deus num livro. São bonitos os dois: o da árvore e o do livro. Ela fala, por sinais, com os dois. O louva-a-deus do livro responde dentro da cabeça dela. O da árvore também.  Ah, não quer pensar muito em como é isso de falar dentro da cabeça e joga um beijo para o louva-a-deus. Ele se sente beijado e pula para um galho próximo. Ela joga outro beijo e ele pula na cabeça dela e, da cabeça, para outro galho. Ficam assim, por um tempo: ela, de beijo em beijo e ele, de galho em galho.
   Na árvore moram os invisíveis que só Diná vê. Eles ensinaram à menina uma linguagem de sinais usada pelos invisíveis que são surdos. Grímpia é a melhor amiga invisível de Diná. Todos os dias Grímpia sai de dentro da árvore para brincar com Diná.  As mãos se falam e se respondem. As mãos delas, cheias de linguagem silenciosa. Silêncio cúmplice. De prodígio.
   Às vezes, as duas saem em voo no cangote do vento e vão pra longe conhecer outros lugares. Uma vez foram a um lugar chamado Aqui, onde encontraram uma bruxa surda que adorava dançar. Só a bruxa viu Grímpia. As outras pessoas do lugar, não. Quando Diná falava com sua amiga invisível, elas achavam estranho e se afastavam. Noutro lugar, por onde passaram, conheceram um rei que tapava os ouvidos com cera pra não ouvir o que não lhe interessava.
   Uma vez foram ao  deserto. Viram um dromedário cor de canela. O dromedário via invisíveis. Soltou um som de boas-vindas para Grímpia. Subitamente voou. Grímpia desenhou no ar: “Que pena!”. Diná leu e concordou. Elas acharam o deserto muito solitário. Pegaram o primeiro vento que passava e voltaram.
   Nesse dia, Diná desenhou um dromedário no caderno de brincar. O dromedário entrou no grão do olho da mãe de Diná. Depois foi para a parede da sala. Era mesmo uma lindeza. Parecia miragem.
   Quando o irmão de Diná foi morar numa estrela – a mais cintilante do firmamento, segundo o pai – ela enfrentou a dor profunda na árvore. A tristeza pela casa. As gentes perplexas. Nem notaram que ela estava se curando na árvore. Estavam em outro lugar. Ela viu. Ela também estava. Mas ela tinha a árvore para se abrigar.
   Não deu tempo para o irmão aprender, com ela, a morar na árvore. Foi-se embora antes de aprender a caminhar. Ela iria ensiná-lo a conversar com as mãos. Seria tipo brincar de mãos. Ele iria gostar muito. As gentes grandes, que não entendessem a linguagem de sinais, se perguntariam: “o que será que eles estão dizendo um ao outro? Serão brincadeiras ou segredos?” Enquanto isso, ela e o irmão tirariam das mãos coisas de rir, de amar e de sonhar.
   Os olhos dela se apagaram. A saudade consome tanta luz! A árvore ajudou polvilhar grãos de claridade nos dias de treva. A mãe diz que o irmão foi embora na frente mas, que, um dia,  irão encontrá-lo na estrela.
   Sempre que a noite cai, a mãe vem à varanda uma, duas, três, mais vezes e faz sinal para Diná descer. Diná faz sinal de “ já vou, péra aí”. Quer morar mais um pouquinho na árvore. Até a chegada dos vaga-lumes. À boca da noite, os luminosos caem aqui, ali, acolá. É tanta luz cruzada que ela não dá conta. Ficaria até não sei quando brincando com os pirilampos, se a mãe não a tirasse da árvore.
   No mês de novembro, do ano em que Diná entrou para a escola, caiu uma forte tempestade de águas e ventos. A árvore foi atingida e partiu-se ao meio. Diná viu os estragos. Reviu. Tresviu. Fechou os olhos. Abriu. Sentou nos galhos tombados. Depois caminhou sobre eles como uma equilibrista. Os passarinhos mudaram-se para a metade da árvore que não fora atingida. O louva-a-deus nas folhas. Os invisíveis nos seus sempre lugares que só Diná vê. “Do fundo da delicadeza, levantam-se mãos invisíveis que curam”- Grímpia disse por finos sinais. Diná leu e balançou a cabeça em sim.
   A árvore perdera metade de si. O pai disse que brotariam outros galhos na parte ferida. A árvore ficaria copada outra vez. Enfrentara  a tempestade. Haveria de se  curar dos ferimentos em seu caule. Se ela pusesse fazer uma mágica para o caule brotar logo! Mas brotar é milagre de paciência. Um dia não passa à frente do outro nunca. Há a vez das flores antes de ser a vez dos frutos. Lições que Diná assimilou acompanhando os ciclos da árvore.
   Morar na árvore partida é tão possível quanto morar na árvore inteira. Mal rompe a manhã, Diná pula nos galhos salvos e se acomoda entre folhas. Toma conta da árvore partida. Amigo é pra todo dia, haja choro, haja melodia. A mãe desenhou essa frase no ar e Diná gravou.
   Mais de uma vez Diná sonhou que a árvore estava intacta. Acordou e foi à janela ver se era verdade. Não era. Lá estavam as entranhas expostas. “Pior se tivesse sido arrancada pela raiz. Pior se tivesse caído um raio sobre ela” – lembrou Grímpia ao saber dos sonhos.
  Os meses passaram no justo tempo em que tudo passa. A árvore largou um pequeno broto. Diná acompanhou o crescimento do broto, dia após dia. A mãe ficava aflita com a vigília de Diná aos brotos e disse, por carinhosos sinais,  que é preciso paciência com o tempo da natureza. Olhando de hora em hora parece que o crescimento demora mais.  Diná sabe que é assim mas não resiste e segue a vigília.
  Uma vez as formiga atacaram a árvore. Diná ficou apavorada. Só sossegou quando o pai deu um jeito de afastar as cortadeiras. Quase que elas dão cabo das folhas novas, tão frágeis, ainda. Logo surgiram outros brotos. No devido tempo virarão galhos fortes.
  Um dia, por conta da vida que passa, e deixa a infância para trás, Diná deixará a moradia na árvore. Mas a árvore seguirá com ela, desenhada em algum lugar profundo de seu ser. Sempre a vida desenha nesse lugar.  Lugar de somente sentir e suspirar. Lugar cintilante, de enigmas e sinais.





terça-feira, 19 de maio de 2020

Queridos cavalos




OS CAVALOS  

Pelos olhos de um cavalo, consegue-se alcançar a transparência. Um cavalo olha como quem simplesmente é, sem simulacros e encenações da vida ímpia.Dos olhos dos cavalos caem misericórdias e alentos. Sem que se saiba,  estão salvando o mundo.
Quando estão esfalfados deitam-se e sondam as entrelinhas da paisagem como os que não têm avareza, só o peso das horas sobre o lombo. Com as patas, imprimem no chão de terra batida, seus dias breves, um a um desenhados. Em dias de tempo bom e fartura de sol, as borboletas costumam brincar nas marcas das patas dos cavalos. Cheiram as marcas e vão para os voos contentes por haverem capturado do chão certa força que só ali encontram.
Os cavalos acostumaram-se tanto consigo mesmos que fitam os horizontes sem despeito. Os arremessos dos cavalos alados não lhes causam gasturas. Não são, no entanto, conformistas: têm sempre um coice certeiro para quem faltar com a civilidade.
O lombo dos cavalos ressente-se com o peso das ruindades humanas. Pesa-lhes a falta de gentileza com a vida. Os canalhas e os cínicos da terra têm tudo a aprender com a inteireza de um cavalo.
Com a noite imensa, a alma dos cavalos se funde com tudo que mergulha no sem fim dos relentos. Dizem que é aí que capturam a luz do vaga-lume cata-sonho, o que só é concedido aos cavalos e, de século em século, a um ou outro ser humano.
É sabido que o cavalo de Tróia não se interessava por açúcar mascavo. Porém, os outros cavalos em geral se esbaldam diante de um recipiente com a morena porção. Nessas horas, o mundo estaria completo, não fossem os cabrestos e as cercas de arame farpado.
Ao morrerem de velhice, perdem os dentes e são atacados pela febre puxadeira, que os leva a procurar uma poça d’água que lhes alivie a sede final e lhes receba a alma. Nem na hora final os cavalos perdem a elegância e o aprumo. Da primeira à última hora do dia são puro charme e crina. Pastam a campina como as crianças brincam, sem ciência do quanto o presente vai ficando antigo nos embustes das estradas.

P.S. Dedico estas linhas ao cavalo Pangaré, falecido em 10.05.1969, do qual guardo um retrato em preto e branco já bem desbotado.

São José, primavera dos anos 2000

terça-feira, 20 de março de 2018

Leituras em serviço: respiro, sonho, encantamentos



NÃO VÁ EMBORA, CLARICE!

Prêmio LEIA COMIGO!  da Fundação Nacional
do livro Infantil e    Juvenil - FNLIJ - em 2003
Categoria:  relato ficcional

                                                                   
         De primeiro era assim: a gente chegava aqui, pegava as ferramentas de trabalho e ia varrer as ruas do lado da praça XV. Todo santo dia era a mesma coisa: era varrer, varrer, juntar o lixo e pronto.
Aí, um dia, veio aqui uma moça com uma baita sacola de livros ( eu nunca tinha visto tanto livro!) e perguntou se a gente queria  ler aqueles livros. Eu, Luzia  Lopes , fui a primeira a levantar a mão. Quase todas quiseram. A Ilce não quis, não porque ela não quisesse mesmo, mas porque ela não sabe ler e a Tina porque é muito envergonhada. Mas, isso foi só no começo, porque a moça era jeitosa, dava de si, puxava pelo nosso tino, fazia a gente ver que temos tutano e poderio dentro de nós.
Desse dia em diante, durante um ano, dois dias por semana, a gente chegava meia hora antes pra ler os livros da moça ( Clarice era o nome dela). Toda terça e sexta era aquela novidade boa e só depois a gente ia para a varreção de rua. Os livros eram bonitos no feitio dos desenhos e nas idéias.
Em seguidamente,  aconteceu uma coisa muito boa: A Clarice viu que meia hora não dava pra nada, passava muito ligeiro e ela não podia ficar mais tempo porque tinha que dar aulas na universidade.  Então ela passou a emprestar os livros pra gente levar pra casa e devolver no próximo encontro.
Ficou acertado assim, porque, às vezes, quando a gente tava só com os pés de fora e o resto do corpo todo dentro do livro, acontecia dela ter que ir e aí babau ver a continuação. Tinha que esperar dois dias e dois dias é muita coisa quando a gente tá ficando cada dia mais gostadeira de leitura e de livros, e lendo livro de tudo quanto é tamanho.
Uma coisa que me deixava fora de mim, eu nem sentia o chão debaixo dos pés, nem via o que acontecia ou deixava de acontecer ao redor, e o meu olho ficava vidrado, era quando a Clarice lia as histórias dos livros pra nós! Aí  é que eu ficava mais acesa pra ler, aquilo me espertava por dentro, me remexia o juízo.
No final dava um guaiú na salinha de ferramentas porque todas as colegas queriam levar pra casa o livro que tinha sido lido pela Clarice. O livro, lido por ela, parecia que incendiava na nossa frente, criava asas, ficava muito mais bonito e dava gana de ler um monte de vezes. Ela tinha que jogar o uni...duni...tê...salamê...minguê pra poder ver quem levava o livro, que senão dava briga. A Teroca quase que fica de mal comigo por causa de um livro, meu Pai do céu!  A Clarice fazia a gente virar uma criançarada! Imaginem, uma mulherada,  pulando que nem loucas,  e gritando pra disputar o livro, o que é isso, o que é?
Ela ficava muito compenetrada quando lia os livros pra nós. Lia bem lido, bem certinho, falava quem escreveu as palavras e quem pintou as figuras. Quando ela lia poesia eu não me agüentava de tão bom que eu achava aquelas palavras combinativas que pareciam música. Fazia eu me lembrar da minha vó, que era declamadeira de versos e parecia que eu voltava lá atrás, na beira do rio onde me criei.
         Acontecia, algumas vezes, de a gente não entender e mesmo não gostar de um determinado livro e aí a Clarice pegava esse livro e lia pra nós no modo bom que ela tem de ler e parecia que aquilo que não chegava ao nosso entendimento pelos olhos, chegava pelos ouvidos. O livro pegava a crescer na voz da Clarice, a crescer, a crescer e a encher a gente de emoção e contentamento.
  Levar os livros pra casa foi muito bom porque nós mostramos os livros pros nossos filhos e lemos com eles. A gente repartia os livros com eles. É que nem uma repartição de pão.  Só que é pão pra alma se arregalar.
Quando eu saía de casa, pela manhã, o meu filho ficava na janela gritando: traga tal livro! Aquele da Panela de arroz, que tem adivinhações pra abrir portas, esse menino se apegou dum jeito! Eu chegava do trabalho, ia limpar a casa e ele atrás de mim com a Panela de arroz pedindo pra ler com ele.
 Depois foi o da Velhota Cambalhota. Eu não sei como ele não enjoava de tanto ler esse livro. Tinha vezes que lia o livro inteiro e outras vezes queria ler só algumas passagens. Se na mala tivesse mais livros do mesmo nome, a gente podia ficar mais dias com o livro, mas, assim, tinha que devolver logo, senão as colegas não podiam levar para os filhos delas também. Livros como Cocô de passarinho, A menina que o vento roubou, Melusina, Boi da Cara Preta, Vovó quer namorar, Alice no país das maravilhas,  Saco de Brinquedos,  por exemplo, tinha que ter uns cinco de cada, eu acho.
 Todos os livros bonitos são meus preferidos, mas têm uns que são mais preferidos que outros. Ciganos,  que livro pra me fazer sonhar! Esse é um livro que eu queria ter pra sempre. Volta e meia eu ia estar lendo. A sola do meu pé é de cigano. Tá sempre querendo partir. Já parti um punhado de vezes. Outro livro que, se eu pudesse eu queria ficar perto dele todo dia é Vó que faz poema ( que podia ser a minha vó se ela tivesse estudado em escola).  Quando eu tivesse alegre eu ia ler esse livro e quando tivesse triste ia ler também.
Sabe quando você lê um livro e se assusta com a boniteza dele? Um assustamento  bom, que nem quando chega de surpresa alguém estimado e você se assusta de felicidade? Tenho certeza que livro dá felicidade pra gente. Uns dão mais que outros. Esses que dão felicidade cada vez que a gente lê dá vontade de ficar com eles pra sempre, como esses que eu falei. Mas, têm tantos.... Foi uma sorte a Clarice ter trazido essa sacola de felicidades pra nós.
       Tenho pra mim que, se não   temos o  livro, falta uma luz dentro da gente. Livro ajuda a gente a viver de outro modo, com outras vontades, tira a casca da vida pra gente ver como a vida é por dentro. Parece  que nascemos de novo e com mais força pra botar o pé no mundo.
Têm livros que dão voltas e voltas no nosso juízo até a gente compreender e quando compreendemos parece que uma coisa se encorpou dentro de nós. E aí as coisas vão ficando mudadas nos nossos sentidos, como se a gente fosse ficando outra pessoa e não fosse mais uma pessoa de todo dia que larga suor pelo mundo e é só isso.
Uma vez a Clarice disse que livro que cai na palma é como cascalho que cai num rio. Primeiro forma uma onda pequena que se alarga, se alarga e abraça a margem do rio, e abraça tudo que tiver na margem, planta, pau, pedra, mãe d´água. Quem tiver por perto é abraçado por aquela onda se abrindo. Livro também vai abrindo caminho, nunca vi!
Não sei dizer quantos livros eu levei pra casa, daria uma lista bem grande se eu fosse assentar todos no papel. Sei dizer que muito menino e gente grande lia o que eu levava. Era o meu filho. Era o amigo do meu filho. Era a professora dele, a turma dele e todo mundo que vinha aqui.
Quando um livro era mais dificultoso que nem Coração não toma Sol ( pera aí... Valdete me ajude aqui lembrar...) ah, sim, um do Manuel Bandeira, mas não tinha outro escritor de livro que também era Manuel? Pois é, tinha, esse outro também era Manoel, mas era de  Barros e o livro era a Gramática expositiva do chão, pois então, quando um livro era dificultoso pra nós, a Clarice ia lendo de parte em parte até o fim e ia comentando. Ela botava pergunta pra nós, botava pro livro e aí dava pra entender bastante. Ela era engraçada: ela cutucava no livro com a sabedoria dela, e também cutucava a nossa inteligência, que também cutucava o livro, entende? Eram voltas que ela fazia pra gente poder entrar mais naquela leitura.
Essas eram conversas muito boas. A mais faladeira era eu, mas todas falavam, até a Ilce, que agora tá aprendendo a ler na classe do professor Dauto dos Reis Pires. Por sinal, ele ficou de vir aqui um dia, ler com a gente. A Ilce levava os livros da mala pra ele e ele dava muita atenção; é um homem muito paciencioso e ama as leituras. Já vi que quem ama as leituras têm coração manso pra lidar com a gente.
Fazia um ano e pouquinho que  as leituras iam e vinham quando desabou sobre nós uma notícia preveste: a Clarice ia embora. Ela casou com um rapaz do Sergipe e se foi. Tanto moço bonito por aqui pra Clarice se apaixonar, ela tinha que se apaixonar logo por um rapaz do Sergipe, meu Deus?!  Mas, ela disse que uma amiga dela ia continuar trazendo os livros pra nós. Isso já faz um mês.
A Valdete não agüentou e foi lá na universidade saber alguma notícia. A Teroca e eu ficamos atrás da coluna olhando a Valdete entrar de porta em porta a pedir contas das leituras da mala. Ela parecia uma advogada, eu até tropecei na Teroca de tanto me rir. O que a gente não faz pelo livro quando fica ligada nele?
A Clarice dizia que a gente precisava saber que tinha direito ao livro, mas para lutar por ele, precisava estar pegada nele, tão pegada, que não agüentasse mais dele se separar.
Na última porta tinha um moço. Moço de cara boa. Moço muito gentil. Disse que não vai demorar e vem mesmo outra moça ler com a gente, falou até que o nome dela é Rosália. Tomara que seja logo, a gente mal pode esperar!

        







sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Almas de papel e tinta


Crônica contemplada no Prêmio Sérgio Farina, em São Leopoldo/RS, edição 2011


Desde que o descobri, há mais de meio século, o livro tornou-se meu par preferido em todas as estações da vida. Na alegria ou na ruína, não saberia viver sem este companheiro por perto. Refiro-me, especialmente, ao livro literário.
Tomar parte dos destinos inventados - “reais” enquanto transcorre a leitura – acompanhar a travessia dos personagens que se levantam de dentro  das palavras é,  para mim, um dos grandes baratos da literatura. Por horas, dias, meses, anos, é um gosto segui-los páginas  adentro, suas  almas expostas, às voltas com acertos, equívocos, aviltezas e tudo o mais que lhes cabe nas linhas e entrelinhas.

É o leitor quem assopra-lhes a brasa encoberta a fim de que se movam e    se cumpram como criaturas feitas de palavras. Atrás de si vão deixando marcas indeléveis, algumas à flor das palavras, outras fossilizadas nas entranhas do dito.
Basta o olho encontrar a primeira frase do livro  Quincas Borba: “Rubião fitava a ensaeada”, para o sangue literário começar a circular nas veias do personagem. Então é segui-lo da glória à decadência, parando para dar conta do espanto, das máscaras que caem,  das epifanias que resultam  da leitura desta obra excelsa de Machado de Assis.
Se alguns personagens tornam-se criaturas fictícias de prestígio, é por conta do leitor ( de notório saber ou não) que, ao descobri-los, proclama aos quatro ventos as emoções provadas durante o prazeroso  encontro. Não  só proclama como, também,  volta a visitar  às moradias inventadas que lhe são caras.

Em verdade, estas mágicas criaturas – os personagens – mudam-se do livro para as moradias espirituais do leitor e ali permanecem a provocar visões, e a virar e revirar o território íntimo, sem cerimônias: já então são de casa, não precisam pedir licença para nada. Sobem pelas escadas da imaginação, sentam-se à mesa, caminham pelo assoalho, teto, paredes; embrenham-se por regiões que o próprio leitor desconhece.

Dom Quixote, por sinal, há quatrocentos anos,  profetizou a própria glória e imortalidade: “Ditosa idade e século ditoso, aquele em que hão de sair à luz as minhas famigeradas façanhas, dignas de gravar-se em bronze, esculpir-se em mármores, e pintar-se em painéis para lembranças de todas as idades”.  Não sei de profecia que tenha se cumprido tão ao pé da letra como esta. Gravado a sonho, o Cavaleiro da Triste Figura continua a transitar pelas terras sagradas, a espada em riste contra os inimigos da imaginação.

Uma vez estabelecidos nos domínios primaciais,  os personagens viram almas e juntam-se à do leitor que fica, assim, povoado de almas e nutrido de recursos simbólicos para a travessia no mundo real,  mundo este que  oferece, o tempo todo, almas de plástico, sob medida,  no varejo e no atacado.

Se o leitor os põem em pé, os personagens não fazem por menos: são bons companheiros em dias de chumbo e treva. Alguns livros têm o dom da cura.  Tenho certeza que Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto, e Metamorfoses, de Ovídio, pertencem a esta linhagem.
Os livros que realmente importam conseguem, como diz Edmond Rostand, “exaltar com o lirismo, moralizar com a beleza, consolar com a graça e, enfim, dar lições de alma” , ou nas palavras de Barry Lopes: “a tarefa da ficção é nos ajudar com discernimento e nos curar”. E nem importa se os personagens saem dos mosteiros da idade média, do mundo da cavalaria ou se são contemporâneos do leitor. O que importa é que sejam movidos à seiva artística.

Um amigo, que já partiu deste mundo,  me disse uma vez que “para a prática da leitura,  a vida é muito curta”, querendo dizer que uma vida não chega para ler tudo que queremos e, principalmente, reler nossos autores prediletos,  pois, como já foi dito, e eu repito, há livros que nunca terminamos de ler, porque são  inesgotáveis, como uma fonte eterna.








sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Anônimo leitor

  

Bem cedo fui à varanda olhar a rua  amanhecendo. Passeei os olhos pelo terreno baldio em frente à minha casa e notei algo pendurado na cerca do terreno. Uma página escrita que, no dia anterior, não estava lá.
Desci a escada e fui conferir de perto. Era uma crônica de Rubem Braga, Flor-de-maio,  escrita em máquina de escrever – datilografada. Já li esta crônica datilografada, inclusive  eu mesma a datilografei algumas vezes para passar aos meus alunos, em outros tempos.  Porém, pendurada em uma cerca de terreno baldio nunca a tinha lido. Li como se a tivesse encontrado pela primeira vez. Escrita bela que cai na alma germinando. Uma peça muito linda que nos deixou o grandioso cronista Rubem Braga.
De volta do encantamento com a Flor-de-maio, me perguntei quem seria o leitor que tivera a brilhante ideia de compartilhar literatura através da cerca. A pergunta ficou no ar enquanto fui tomar conta da rotina.
  Na manhã seguinte, ao abrir a janela, vi que havia outra página na cerca. Larguei tudo e desci pra rua ver o que o leitor oculto deixara no varal. Desta vez deixou um poema de Camões – Para Tão Longo Amor Tão Curta a Vida. Um poema eterno. Um dos mais belos poemas de amor que já foram escritos na face da terra.
  Algumas pessoas passaram pelo varal, olharam e seguiram em frente. Outras  pararam para ler os textos. Uma senhora fez menção de levar a crônica de Rubem Braga, arrependeu-se e foi embora para seu destino. 
  O leitor oculto seguiu compartilhando suas páginas preferidas. Por vários dias, a  rua acordou literária,  com trechos de Graciliano Ramos, Paulo Mendes Campos,  Machado de Assis, poemas de Florbela Spanca, Gonçalves Dias, Emily Dinkson, Castro Alves, Manuel Bandeira.
O varal seguia firme até que veio uma chuva que durou dois dias. Não sobrou nada das páginas cuidadosamente datilografadas. As águas caídas do céu derreteram as palavras sublimes dos autores prediletos do anônimo leitor. Pensei que ele iria desistir depois de ver o estrago das águas em seu laborioso trabalho. Mas, me enganei. O leitor secreto continuou depositando páginas e páginas no varal.
Em uma das noites vi quando ele chegou em seu caminhar lento e trôpego.  De bengala e chapéu.  Deixou a bengala ao lado de um poste e o chapéu no chão. Tirou o chapéu! – estranhei.  Depois compreendi. Postar o texto no varal era uma cerimônia sagrada. Tirava o chapéu para seus autores prediletos. Em reverência. Por paixão pelas palavras de autores que lhe são preciosos e inesquecíveis. 
Agradeci à vida por existirem criaturas belas como este leitor que, na calada da noite, vem repartir os suprimentos literários que lhe ajudam a viver.


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Amizades da vida inteira



  Cristina e Virgínia partiram desta vida com poucos meses de intervalo entre a partida de uma e de outra. Ambas passavam dos noventa anos. Quando as conheci elas já eram amigas e foram amigas durante a vida inteira.
  Sempre que releio o poema de Cecília Meireles,  As Duas Velhinhas, lembro de Cristina e Virgínia. Tal como as personagens de Cecília Meireles, essas duas mulheres, na alta velhice, também tomavam café em “xicrinhas de porcelana” e falavam de suas lembranças. “Quando eu era menina,  na beira do rio.. ” – dizia Virgínia. “Quando eu era menina, corria no vento ...” dizia Cristina e teciam, juntas,  as memórias felizes de um tempo ameno, do qual tinham intermináveis saudades.
  Através dessas duas senhoras tive as primeiras e mais fortes lições sobre a amizade. Adquiri a ideia de que uma amizade, para valer a pena, teria que ser profunda e duradoura. Amizades assim vencem o tempo e a distância. Os amigos são companheiros nas travessias, nas horas alegres ou tristes que se alternam em nossa curta vida neste mundo. Quem já enfrentou grandes reveses sabe o quanto é encorajadora a mão terna de um amigo, estendida para nós em meio ao caos.
  O padre Antônio Vieira, em um de seus textos magistrais, fala do “amor fino”,  amor sem o viés interesseiro. Há muito “amor fino” nas amizades. Fineza capaz de gestos inesquecíveis de generosidade. Jamais esquecemos o amparo de um amigo em horas cruciais da existência.
  A vida real é cheia de amostras de amizades inspiradoras, não só entre humanos, mas também entre humanos e animais. Lembro o filme Para Sempre ao seu Lado, sobre a amizade de um professor com um cão, uma história de “amor fino” e notável delicadeza, que vale a pena visitar ou revisitar.
  Na literatura também encontramos amizades admiráveis como a de Tom Sawyer e Huck Finn, personagens de Mark Twain. Quando os conheci nas páginas de papel e tinta, fiquei impressionada com os laços de afeto que unem estes dois meninos literários. Os dois só só se separaram   durante o  tempo em  que  Huck teve que simular a própria morte para fugir ao pai violento. Na maior parte do tempo Tom e Huck  andam juntos pelas encostas do sonho, cúmplices nas aventuras, nas artes da imaginação, no amor pela liberdade, no prazer da invenção.
A diferença entre os dois – Tom educado segundo a moral e os bons costumes burgueses e Huck Finn educado pelo sol, a lua, as estrelas e o acaso – cria a mútua admiração: o primeiro tem a experiência e a coragem de quem vive ao relento, e o segundo tem os saberes transmitidos por sua condição social privilegiada. Das amizades de papel e tinta esta é uma das mais encantadoras, com todo respeito à Dom Quixote e Sancho Pança, célebres amigos de todos os tempos.
Cito Tom e Huck porque é a amizade literária que conheço há mais tempo; a literatura é pródiga em exemplos de fortes amizades.
O amor fino de um amigo é uma dádiva. As amizades sinceras e limpas são instâncias de cura da solidão e de outros desmaios que nos acometem ao longo dos dias e noites deste mundo carunchado, mundo de tantos equívocos. Drumond já convocava: “ não nos afastemos, vamos de mãos dadas” .