terça-feira, 20 de março de 2018

Leituras em serviço: respiro, sonho, encantamentos



NÃO VÁ EMBORA, CLARICE!

Prêmio LEIA COMIGO!  da Fundação Nacional
do livro Infantil e    Juvenil - FNLIJ - em 2003
Categoria:  relato ficcional

                                                                   
         De primeiro era assim: a gente chegava aqui, pegava as ferramentas de trabalho e ia varrer as ruas do lado da praça XV. Todo santo dia era a mesma coisa: era varrer, varrer, juntar o lixo e pronto.
Aí, um dia, veio aqui uma moça com uma baita sacola de livros ( eu nunca tinha visto tanto livro!) e perguntou se a gente queria  ler aqueles livros. Eu, Luzia  Lopes , fui a primeira a levantar a mão. Quase todas quiseram. A Ilce não quis, não porque ela não quisesse mesmo, mas porque ela não sabe ler e a Tina porque é muito envergonhada. Mas, isso foi só no começo, porque a moça era jeitosa, dava de si, puxava pelo nosso tino, fazia a gente ver que temos tutano e poderio dentro de nós.
Desse dia em diante, durante um ano, dois dias por semana, a gente chegava meia hora antes pra ler os livros da moça ( Clarice era o nome dela). Toda terça e sexta era aquela novidade boa e só depois a gente ia para a varreção de rua. Os livros eram bonitos no feitio dos desenhos e nas idéias.
Em seguidamente,  aconteceu uma coisa muito boa: A Clarice viu que meia hora não dava pra nada, passava muito ligeiro e ela não podia ficar mais tempo porque tinha que dar aulas na universidade.  Então ela passou a emprestar os livros pra gente levar pra casa e devolver no próximo encontro.
Ficou acertado assim, porque, às vezes, quando a gente tava só com os pés de fora e o resto do corpo todo dentro do livro, acontecia dela ter que ir e aí babau ver a continuação. Tinha que esperar dois dias e dois dias é muita coisa quando a gente tá ficando cada dia mais gostadeira de leitura e de livros, e lendo livro de tudo quanto é tamanho.
Uma coisa que me deixava fora de mim, eu nem sentia o chão debaixo dos pés, nem via o que acontecia ou deixava de acontecer ao redor, e o meu olho ficava vidrado, era quando a Clarice lia as histórias dos livros pra nós! Aí  é que eu ficava mais acesa pra ler, aquilo me espertava por dentro, me remexia o juízo.
No final dava um guaiú na salinha de ferramentas porque todas as colegas queriam levar pra casa o livro que tinha sido lido pela Clarice. O livro, lido por ela, parecia que incendiava na nossa frente, criava asas, ficava muito mais bonito e dava gana de ler um monte de vezes. Ela tinha que jogar o uni...duni...tê...salamê...minguê pra poder ver quem levava o livro, que senão dava briga. A Teroca quase que fica de mal comigo por causa de um livro, meu Pai do céu!  A Clarice fazia a gente virar uma criançarada! Imaginem, uma mulherada,  pulando que nem loucas,  e gritando pra disputar o livro, o que é isso, o que é?
Ela ficava muito compenetrada quando lia os livros pra nós. Lia bem lido, bem certinho, falava quem escreveu as palavras e quem pintou as figuras. Quando ela lia poesia eu não me agüentava de tão bom que eu achava aquelas palavras combinativas que pareciam música. Fazia eu me lembrar da minha vó, que era declamadeira de versos e parecia que eu voltava lá atrás, na beira do rio onde me criei.
         Acontecia, algumas vezes, de a gente não entender e mesmo não gostar de um determinado livro e aí a Clarice pegava esse livro e lia pra nós no modo bom que ela tem de ler e parecia que aquilo que não chegava ao nosso entendimento pelos olhos, chegava pelos ouvidos. O livro pegava a crescer na voz da Clarice, a crescer, a crescer e a encher a gente de emoção e contentamento.
  Levar os livros pra casa foi muito bom porque nós mostramos os livros pros nossos filhos e lemos com eles. A gente repartia os livros com eles. É que nem uma repartição de pão.  Só que é pão pra alma se arregalar.
Quando eu saía de casa, pela manhã, o meu filho ficava na janela gritando: traga tal livro! Aquele da Panela de arroz, que tem adivinhações pra abrir portas, esse menino se apegou dum jeito! Eu chegava do trabalho, ia limpar a casa e ele atrás de mim com a Panela de arroz pedindo pra ler com ele.
 Depois foi o da Velhota Cambalhota. Eu não sei como ele não enjoava de tanto ler esse livro. Tinha vezes que lia o livro inteiro e outras vezes queria ler só algumas passagens. Se na mala tivesse mais livros do mesmo nome, a gente podia ficar mais dias com o livro, mas, assim, tinha que devolver logo, senão as colegas não podiam levar para os filhos delas também. Livros como Cocô de passarinho, A menina que o vento roubou, Melusina, Boi da Cara Preta, Vovó quer namorar, Alice no país das maravilhas,  Saco de Brinquedos,  por exemplo, tinha que ter uns cinco de cada, eu acho.
 Todos os livros bonitos são meus preferidos, mas têm uns que são mais preferidos que outros. Ciganos,  que livro pra me fazer sonhar! Esse é um livro que eu queria ter pra sempre. Volta e meia eu ia estar lendo. A sola do meu pé é de cigano. Tá sempre querendo partir. Já parti um punhado de vezes. Outro livro que, se eu pudesse eu queria ficar perto dele todo dia é Vó que faz poema ( que podia ser a minha vó se ela tivesse estudado em escola).  Quando eu tivesse alegre eu ia ler esse livro e quando tivesse triste ia ler também.
Sabe quando você lê um livro e se assusta com a boniteza dele? Um assustamento  bom, que nem quando chega de surpresa alguém estimado e você se assusta de felicidade? Tenho certeza que livro dá felicidade pra gente. Uns dão mais que outros. Esses que dão felicidade cada vez que a gente lê dá vontade de ficar com eles pra sempre, como esses que eu falei. Mas, têm tantos.... Foi uma sorte a Clarice ter trazido essa sacola de felicidades pra nós.
       Tenho pra mim que, se não   temos o  livro, falta uma luz dentro da gente. Livro ajuda a gente a viver de outro modo, com outras vontades, tira a casca da vida pra gente ver como a vida é por dentro. Parece  que nascemos de novo e com mais força pra botar o pé no mundo.
Têm livros que dão voltas e voltas no nosso juízo até a gente compreender e quando compreendemos parece que uma coisa se encorpou dentro de nós. E aí as coisas vão ficando mudadas nos nossos sentidos, como se a gente fosse ficando outra pessoa e não fosse mais uma pessoa de todo dia que larga suor pelo mundo e é só isso.
Uma vez a Clarice disse que livro que cai na palma é como cascalho que cai num rio. Primeiro forma uma onda pequena que se alarga, se alarga e abraça a margem do rio, e abraça tudo que tiver na margem, planta, pau, pedra, mãe d´água. Quem tiver por perto é abraçado por aquela onda se abrindo. Livro também vai abrindo caminho, nunca vi!
Não sei dizer quantos livros eu levei pra casa, daria uma lista bem grande se eu fosse assentar todos no papel. Sei dizer que muito menino e gente grande lia o que eu levava. Era o meu filho. Era o amigo do meu filho. Era a professora dele, a turma dele e todo mundo que vinha aqui.
Quando um livro era mais dificultoso que nem Coração não toma Sol ( pera aí... Valdete me ajude aqui lembrar...) ah, sim, um do Manuel Bandeira, mas não tinha outro escritor de livro que também era Manuel? Pois é, tinha, esse outro também era Manoel, mas era de  Barros e o livro era a Gramática expositiva do chão, pois então, quando um livro era dificultoso pra nós, a Clarice ia lendo de parte em parte até o fim e ia comentando. Ela botava pergunta pra nós, botava pro livro e aí dava pra entender bastante. Ela era engraçada: ela cutucava no livro com a sabedoria dela, e também cutucava a nossa inteligência, que também cutucava o livro, entende? Eram voltas que ela fazia pra gente poder entrar mais naquela leitura.
Essas eram conversas muito boas. A mais faladeira era eu, mas todas falavam, até a Ilce, que agora tá aprendendo a ler na classe do professor Dauto dos Reis Pires. Por sinal, ele ficou de vir aqui um dia, ler com a gente. A Ilce levava os livros da mala pra ele e ele dava muita atenção; é um homem muito paciencioso e ama as leituras. Já vi que quem ama as leituras têm coração manso pra lidar com a gente.
Fazia um ano e pouquinho que  as leituras iam e vinham quando desabou sobre nós uma notícia preveste: a Clarice ia embora. Ela casou com um rapaz do Sergipe e se foi. Tanto moço bonito por aqui pra Clarice se apaixonar, ela tinha que se apaixonar logo por um rapaz do Sergipe, meu Deus?!  Mas, ela disse que uma amiga dela ia continuar trazendo os livros pra nós. Isso já faz um mês.
A Valdete não agüentou e foi lá na universidade saber alguma notícia. A Teroca e eu ficamos atrás da coluna olhando a Valdete entrar de porta em porta a pedir contas das leituras da mala. Ela parecia uma advogada, eu até tropecei na Teroca de tanto me rir. O que a gente não faz pelo livro quando fica ligada nele?
A Clarice dizia que a gente precisava saber que tinha direito ao livro, mas para lutar por ele, precisava estar pegada nele, tão pegada, que não agüentasse mais dele se separar.
Na última porta tinha um moço. Moço de cara boa. Moço muito gentil. Disse que não vai demorar e vem mesmo outra moça ler com a gente, falou até que o nome dela é Rosália. Tomara que seja logo, a gente mal pode esperar!

        







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