sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Lavrado de palavras


Um poema de 1999, premiado no Concurso Lindolfo Bell: 


TERRA LAVRADA

O melhor de mim pulsa
nos sulcos da terra lavrada
com arado de bois.

Extensos milharais
enchem de verde-escuro
as minhas ausências.
O arado trinca
a armadura de pedra
dos meus sentidos.
Revolve raízes antigas
em meu tempo de papel crepom.

Rebenta um veio d’água
em minhas  insônias
e molha as sementes
de trigo e cevada
que reservei para a melhor safra,
aquela que nunca semearei.

A música do arado
atravessa a aragem ácida.
Pausa fresca nos tons fixos,
insistentes, dos refrões,
não por acaso, cínicos,
conduzindo o gado para
as pastagens de plástico.

Vai Barroso! Vai Malhado!
Já cai sereno em meu dia prensado.