sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Almas de papel e tinta


Crônica contemplada no Prêmio Sérgio Farina, em São Leopoldo/RS, edição 2011


Desde que o descobri, há mais de meio século, o livro tornou-se meu par preferido em todas as estações da vida. Na alegria ou na ruína, não saberia viver sem este companheiro por perto. Refiro-me, especialmente, ao livro literário.
Tomar parte dos destinos inventados - “reais” enquanto transcorre a leitura – acompanhar a travessia dos personagens que se levantam de dentro  das palavras é,  para mim, um dos grandes baratos da literatura. Por horas, dias, meses, anos, é um gosto segui-los páginas  adentro, suas  almas expostas, às voltas com acertos, equívocos, aviltezas e tudo o mais que lhes cabe nas linhas e entrelinhas.

É o leitor quem assopra-lhes a brasa encoberta a fim de que se movam e    se cumpram como criaturas feitas de palavras. Atrás de si vão deixando marcas indeléveis, algumas à flor das palavras, outras fossilizadas nas entranhas do dito.
Basta o olho encontrar a primeira frase do livro  Quincas Borba: “Rubião fitava a ensaeada”, para o sangue literário começar a circular nas veias do personagem. Então é segui-lo da glória à decadência, parando para dar conta do espanto, das máscaras que caem,  das epifanias que resultam  da leitura desta obra excelsa de Machado de Assis.
Se alguns personagens tornam-se criaturas fictícias de prestígio, é por conta do leitor ( de notório saber ou não) que, ao descobri-los, proclama aos quatro ventos as emoções provadas durante o prazeroso  encontro. Não  só proclama como, também,  volta a visitar  às moradias inventadas que lhe são caras.

Em verdade, estas mágicas criaturas – os personagens – mudam-se do livro para as moradias espirituais do leitor e ali permanecem a provocar visões, e a virar e revirar o território íntimo, sem cerimônias: já então são de casa, não precisam pedir licença para nada. Sobem pelas escadas da imaginação, sentam-se à mesa, caminham pelo assoalho, teto, paredes; embrenham-se por regiões que o próprio leitor desconhece.

Dom Quixote, por sinal, há quatrocentos anos,  profetizou a própria glória e imortalidade: “Ditosa idade e século ditoso, aquele em que hão de sair à luz as minhas famigeradas façanhas, dignas de gravar-se em bronze, esculpir-se em mármores, e pintar-se em painéis para lembranças de todas as idades”.  Não sei de profecia que tenha se cumprido tão ao pé da letra como esta. Gravado a sonho, o Cavaleiro da Triste Figura continua a transitar pelas terras sagradas, a espada em riste contra os inimigos da imaginação.

Uma vez estabelecidos nos domínios primaciais,  os personagens viram almas e juntam-se à do leitor que fica, assim, povoado de almas e nutrido de recursos simbólicos para a travessia no mundo real,  mundo este que  oferece, o tempo todo, almas de plástico, sob medida,  no varejo e no atacado.

Se o leitor os põem em pé, os personagens não fazem por menos: são bons companheiros em dias de chumbo e treva. Alguns livros têm o dom da cura.  Tenho certeza que Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto, e Metamorfoses, de Ovídio, pertencem a esta linhagem.
Os livros que realmente importam conseguem, como diz Edmond Rostand, “exaltar com o lirismo, moralizar com a beleza, consolar com a graça e, enfim, dar lições de alma” , ou nas palavras de Barry Lopes: “a tarefa da ficção é nos ajudar com discernimento e nos curar”. E nem importa se os personagens saem dos mosteiros da idade média, do mundo da cavalaria ou se são contemporâneos do leitor. O que importa é que sejam movidos à seiva artística.

Um amigo, que já partiu deste mundo,  me disse uma vez que “para a prática da leitura,  a vida é muito curta”, querendo dizer que uma vida não chega para ler tudo que queremos e, principalmente, reler nossos autores prediletos,  pois, como já foi dito, e eu repito, há livros que nunca terminamos de ler, porque são  inesgotáveis, como uma fonte eterna.








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