sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Amizades da vida inteira



  Cristina e Virgínia partiram desta vida com poucos meses de intervalo entre a partida de uma e de outra. Ambas passavam dos noventa anos. Quando as conheci elas já eram amigas e foram amigas durante a vida inteira.
  Sempre que releio o poema de Cecília Meireles,  As Duas Velhinhas, lembro de Cristina e Virgínia. Tal como as personagens de Cecília Meireles, essas duas mulheres, na alta velhice, também tomavam café em “xicrinhas de porcelana” e falavam de suas lembranças. “Quando eu era menina,  na beira do rio.. ” – dizia Virgínia. “Quando eu era menina, corria no vento ...” dizia Cristina e teciam, juntas,  as memórias felizes de um tempo ameno, do qual tinham intermináveis saudades.
  Através dessas duas senhoras tive as primeiras e mais fortes lições sobre a amizade. Adquiri a ideia de que uma amizade, para valer a pena, teria que ser profunda e duradoura. Amizades assim vencem o tempo e a distância. Os amigos são companheiros nas travessias, nas horas alegres ou tristes que se alternam em nossa curta vida neste mundo. Quem já enfrentou grandes reveses sabe o quanto é encorajadora a mão terna de um amigo, estendida para nós em meio ao caos.
  O padre Antônio Vieira, em um de seus textos magistrais, fala do “amor fino”,  amor sem o viés interesseiro. Há muito “amor fino” nas amizades. Fineza capaz de gestos inesquecíveis de generosidade. Jamais esquecemos o amparo de um amigo em horas cruciais da existência.
  A vida real é cheia de amostras de amizades inspiradoras, não só entre humanos, mas também entre humanos e animais. Lembro o filme Para Sempre ao seu Lado, sobre a amizade de um professor com um cão, uma história de “amor fino” e notável delicadeza, que vale a pena visitar ou revisitar.
  Na literatura também encontramos amizades admiráveis como a de Tom Sawyer e Huck Finn, personagens de Mark Twain. Quando os conheci nas páginas de papel e tinta, fiquei impressionada com os laços de afeto que unem estes dois meninos literários. Os dois só só se separaram   durante o  tempo em  que  Huck teve que simular a própria morte para fugir ao pai violento. Na maior parte do tempo Tom e Huck  andam juntos pelas encostas do sonho, cúmplices nas aventuras, nas artes da imaginação, no amor pela liberdade, no prazer da invenção.
A diferença entre os dois – Tom educado segundo a moral e os bons costumes burgueses e Huck Finn educado pelo sol, a lua, as estrelas e o acaso – cria a mútua admiração: o primeiro tem a experiência e a coragem de quem vive ao relento, e o segundo tem os saberes transmitidos por sua condição social privilegiada. Das amizades de papel e tinta esta é uma das mais encantadoras, com todo respeito à Dom Quixote e Sancho Pança, célebres amigos de todos os tempos.
Cito Tom e Huck porque é a amizade literária que conheço há mais tempo; a literatura é pródiga em exemplos de fortes amizades.
O amor fino de um amigo é uma dádiva. As amizades sinceras e limpas são instâncias de cura da solidão e de outros desmaios que nos acometem ao longo dos dias e noites deste mundo carunchado, mundo de tantos equívocos. Drumond já convocava: “ não nos afastemos, vamos de mãos dadas” .






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