sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Anônimo leitor

  

Bem cedo fui à varanda olhar a rua  amanhecendo. Passeei os olhos pelo terreno baldio em frente à minha casa e notei algo pendurado na cerca do terreno. Uma página escrita que, no dia anterior, não estava lá.
Desci a escada e fui conferir de perto. Era uma crônica de Rubem Braga, Flor-de-maio,  escrita em máquina de escrever – datilografada. Já li esta crônica datilografada, inclusive  eu mesma a datilografei algumas vezes para passar aos meus alunos, em outros tempos.  Porém, pendurada em uma cerca de terreno baldio nunca a tinha lido. Li como se a tivesse encontrado pela primeira vez. Escrita bela que cai na alma germinando. Uma peça muito linda que nos deixou o grandioso cronista Rubem Braga.
De volta do encantamento com a Flor-de-maio, me perguntei quem seria o leitor que tivera a brilhante ideia de compartilhar literatura através da cerca. A pergunta ficou no ar enquanto fui tomar conta da rotina.
  Na manhã seguinte, ao abrir a janela, vi que havia outra página na cerca. Larguei tudo e desci pra rua ver o que o leitor oculto deixara no varal. Desta vez deixou um poema de Camões – Para Tão Longo Amor Tão Curta a Vida. Um poema eterno. Um dos mais belos poemas de amor que já foram escritos na face da terra.
  Algumas pessoas passaram pelo varal, olharam e seguiram em frente. Outras  pararam para ler os textos. Uma senhora fez menção de levar a crônica de Rubem Braga, arrependeu-se e foi embora para seu destino. 
  O leitor oculto seguiu compartilhando suas páginas preferidas. Por vários dias, a  rua acordou literária,  com trechos de Graciliano Ramos, Paulo Mendes Campos,  Machado de Assis, poemas de Florbela Spanca, Gonçalves Dias, Emily Dinkson, Castro Alves, Manuel Bandeira.
O varal seguia firme até que veio uma chuva que durou dois dias. Não sobrou nada das páginas cuidadosamente datilografadas. As águas caídas do céu derreteram as palavras sublimes dos autores prediletos do anônimo leitor. Pensei que ele iria desistir depois de ver o estrago das águas em seu laborioso trabalho. Mas, me enganei. O leitor secreto continuou depositando páginas e páginas no varal.
Em uma das noites vi quando ele chegou em seu caminhar lento e trôpego.  De bengala e chapéu.  Deixou a bengala ao lado de um poste e o chapéu no chão. Tirou o chapéu! – estranhei.  Depois compreendi. Postar o texto no varal era uma cerimônia sagrada. Tirava o chapéu para seus autores prediletos. Em reverência. Por paixão pelas palavras de autores que lhe são preciosos e inesquecíveis. 
Agradeci à vida por existirem criaturas belas como este leitor que, na calada da noite, vem repartir os suprimentos literários que lhe ajudam a viver.


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