quarta-feira, 19 de junho de 2013

Letras que não voam: alfabetização em 1960

 
 
                                                                   UMAS FIGURAS
O carimbo pedagógico, hoje um recurso esquecido, já teve seus dias de glória nas escolas brasileiras.
A professora passava de carteira em carteira e ia deixando impresso, no canto da folha do caderno de linguagem, o desenho condizente com a sequência da cartilha do ABC. Em seguida, tínhamos que escrever a palavra correspondente até o final da página. Depois podíamos colorir a figura, e essa era a parte feliz do exercício, o recreio da repetição enfadonha.
O carimbo para ilustrar a palavra lenha vinha com uma velha - Inhá – arcada sob o peso de um feixe de lenha. Nhá se parecia com Tiabena, que morava em uma gruta no meio da mata e, vez ou outra, vinha à vila pedir ajutório nas casas. Diziam que fora escrava na casa dos Ferreira Santos. Alforriada, caíra no mundo,  sem eira sem beira, isto é, sem direitos.  Eu pintava o desenho de Nhá com todo o respeito: aquela não era uma figura qualquer – era Tiabena o tempo todo.
A letra a vinha ilustrada por um passarinho, ao pé do qual estava escrito ave. Pobre ave! Não voaria nunca: o exercício mecânico quebrava-lhe as asas. Bastaria uma senha qualquer e ela nos levaria para longe, por caminhos da imaginação. Porém, a escola de 1960 não estava para voos. Quem era, de onde vinha, para onde ia aquela ave? As perguntas libertariam o passarinho, mas, a repetição passiva da palavra mantinha presas as asas da ave e as nossas.
O carimbo para a palavra jarra me deixava com sede porque me fazia pensar em Q-suco de groselha, um refresco da época. Com lápis vermelho enchia a jarra dessa bebida, bem como os copos que a acompanhavam.
Na vez do m, o desenho era uma mala – com alça!  Por fora a mala trazia ma-me-mi-mo-mu e, dentro, os nossos medos da vara de marmelo no lombo, caso as letras não entrassem em nossas cabeças rapidamente. Lentidão era uma coisa que tresloucava alguns mestres de antanho. Até a mala estremecia quando a vara brandia na mesa de pinho. Como é que uma crianças se alfabetiza?  Essa pergunta ainda não havia nascido na época, estava guardada dentro da mala. Malas fechadas. Bocas fechadas. “Comos” e “porquês” trancados a chave.
O sapo do carimbo que ilustrava a letra s era familiar a todas as crianças do campo. As noites eram cheias dos cantos da saparia nos banhados, restingas, lagoas e poças d´água. Os batráquios eram velhos conhecidos das gentes de Duas Pontes.
A serviço da escola, o sapo era só uma figura muda. Quem é o sapo? Nunca o fizeram falar. Passou a vida de carimbo, mudo como as crianças, pensando que era mesmo só uma figura para fixar a letra s.
Nossos cadernos de linguagem eram pobres de espírito. Da primeira à última página, só se viam cópias e repetições, nenhum sopro de criação. Nunca vi cadernos mais sem voz do que aqueles. Nenhuma frase do caderno era de nossa própria lavra. As figuras dos carimbos eram uma espécie de broche a enfeitar as páginas. Pintadas com lápis de cor,  ficavam com uns ares de festa e chegavam a brilhar no meio das infindáveis repetições mecânicas.
Hoje em dia, felizmente, a alfabetização tem outros atrativos e, os carimbos, quando são usados, cumprem uma função mais lúdica e menos utilitária.