sábado, 23 de novembro de 2013

Aos Retalhos*



Um não sei quê, que vem não sei de onde e sopra não sei como levanta as cinzas do
inevitável. A respiração fica difícil com tantos fantasmas por perto. Abro de par em par as janelas e bato palmas para espantá-los. Sempre funciona. Só os que moram no espelho não se incomodam com palmas nem com outro gesto qualquer. Alimentam-se da conspiração e querem, por força, dar as tintas. Pinto meu hall de entrada com as cores que escolho no catálogo de Donana, a mulher tigre, que comeu a vida pelas bordas e pelo centro, nunca beijou sapos e expulsou ogros com o cabo de vassoura.

A luz, em pessoa, vem a mim: o que acordou, cinza não era. O que se levanta dos confins do espelho me fita, em dúvida e, na dúvida, apunhala pela frente. Os dias são curtos para decifrar tantos contornos. Tremula um lenço branco na ponta de uma taquara. Trégua para eu ir ali ver se nasceram as sementes de tagetes que semeei e se o gato tomou o leite do pires. A taquara sou eu, caniço pensante a La Pascal. O vento pode derrubar, a chuva pode derreter, o acaso pode esmagar. Defendo-me como é possível a um caniço que tem a palavra como recurso e abrigo.

Cai neve no éter do espelho. Cai devagar, no justo tempo da brancura de meus fios de cabelos. Um frio antigo me percorre; punhais para  os dedos das mãos e dos pés descobertos. Enquanto a neve cai, boto meus óculos de grau e vou copiar um poema de Riner Maria Rilke em meu caderno de suprimentos básicos.

Na curva, o rio de espelho me alcança. Não há margens, só esquecimento. São as águas de aço abrindo as comportas do dia. O que não é aço é flor de narciso. O espelho vai me deserdando, passo a passo. Sobra um olho encardido que teima em acreditar nas  aleivosias das águas.
A que me fita tem abismos nos olhos. Aqui e ali faz sombra onde as vacas pastam magras. Ao longe, as saracuras gritam de alegria ou, talvez, de agonia pelo fim da tarde de junho. Entre as juntas das palavras ergo a minha morada e me recolho cedo porque faz  frio e vai cair geada na serra.
Aos retalhos também se vive, com certos limites,  é verdade, mas , nem por isso, com menos artimanhas  para enganar a morte.

 *Crônica selecionada para a Antologia SESC de crônicas,  no  Concurso Rubem Braga  (SESC/Brasília,  2012)

 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Letras que não voam: alfabetização em 1960

 
 
                                                                   UMAS FIGURAS
O carimbo pedagógico, hoje um recurso esquecido, já teve seus dias de glória nas escolas brasileiras.
A professora passava de carteira em carteira e ia deixando impresso, no canto da folha do caderno de linguagem, o desenho condizente com a sequência da cartilha do ABC. Em seguida, tínhamos que escrever a palavra correspondente até o final da página. Depois podíamos colorir a figura, e essa era a parte feliz do exercício, o recreio da repetição enfadonha.
O carimbo para ilustrar a palavra lenha vinha com uma velha - Inhá – arcada sob o peso de um feixe de lenha. Nhá se parecia com Tiabena, que morava em uma gruta no meio da mata e, vez ou outra, vinha à vila pedir ajutório nas casas. Diziam que fora escrava na casa dos Ferreira Santos. Alforriada, caíra no mundo,  sem eira sem beira, isto é, sem direitos.  Eu pintava o desenho de Nhá com todo o respeito: aquela não era uma figura qualquer – era Tiabena o tempo todo.
A letra a vinha ilustrada por um passarinho, ao pé do qual estava escrito ave. Pobre ave! Não voaria nunca: o exercício mecânico quebrava-lhe as asas. Bastaria uma senha qualquer e ela nos levaria para longe, por caminhos da imaginação. Porém, a escola de 1960 não estava para voos. Quem era, de onde vinha, para onde ia aquela ave? As perguntas libertariam o passarinho, mas, a repetição passiva da palavra mantinha presas as asas da ave e as nossas.
O carimbo para a palavra jarra me deixava com sede porque me fazia pensar em Q-suco de groselha, um refresco da época. Com lápis vermelho enchia a jarra dessa bebida, bem como os copos que a acompanhavam.
Na vez do m, o desenho era uma mala – com alça!  Por fora a mala trazia ma-me-mi-mo-mu e, dentro, os nossos medos da vara de marmelo no lombo, caso as letras não entrassem em nossas cabeças rapidamente. Lentidão era uma coisa que tresloucava alguns mestres de antanho. Até a mala estremecia quando a vara brandia na mesa de pinho. Como é que uma crianças se alfabetiza?  Essa pergunta ainda não havia nascido na época, estava guardada dentro da mala. Malas fechadas. Bocas fechadas. “Comos” e “porquês” trancados a chave.
O sapo do carimbo que ilustrava a letra s era familiar a todas as crianças do campo. As noites eram cheias dos cantos da saparia nos banhados, restingas, lagoas e poças d´água. Os batráquios eram velhos conhecidos das gentes de Duas Pontes.
A serviço da escola, o sapo era só uma figura muda. Quem é o sapo? Nunca o fizeram falar. Passou a vida de carimbo, mudo como as crianças, pensando que era mesmo só uma figura para fixar a letra s.
Nossos cadernos de linguagem eram pobres de espírito. Da primeira à última página, só se viam cópias e repetições, nenhum sopro de criação. Nunca vi cadernos mais sem voz do que aqueles. Nenhuma frase do caderno era de nossa própria lavra. As figuras dos carimbos eram uma espécie de broche a enfeitar as páginas. Pintadas com lápis de cor,  ficavam com uns ares de festa e chegavam a brilhar no meio das infindáveis repetições mecânicas.
Hoje em dia, felizmente, a alfabetização tem outros atrativos e, os carimbos, quando são usados, cumprem uma função mais lúdica e menos utilitária.