segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Minhas memórias de Dom Casmurro




Aos treze anos, quando li Dom Casmurro pela primeira vez, segui as pegadas do livro com os recursos de vida e de leituras que a idade me permitiu. A inexperiência, contudo, não impediu que tivesse amado o livro e que este se tornasse, desde então, meu livro machadiano preferido.

Foi na biblioteca que encontrei a obra completa de Machado de Assis. Não sei por que escolhi Dom Casmurro dentre os outros tomos de capa dura, na cor verde-escuro. Não me lembro de ter sido por indicação de outro leitor, e tenho certeza que não foi por obrigação escolar. A professora de Língua Portuguesa da escola era devota da biblioteca, insistia com ardor para que a frequentássemos, mas nos deixava livres para que encontrássemos  os “nossos” livros, ou que os livros nos encontrassem. Leitora apaixonada que era aquela mestra, despertava em nós a cobiça pelos tesouros que se podem arrebatar nas incursões pelas bibliotecas.
 
Mostrei à professora. o livro que havia retirado da prateleira e ela declarou rindo: “um primor!” Meus parcos recursos de leitura, na época, ( nem hoje são notáveis) não deram conta dessa declaração. O que fazia um livro ser um primor? A leitura juvenil foi atrás da história amorosa de Bentinho e Capitu. Seria exigência inócua ( a menos que eu fosse um leitor-prodígio) esperar que a leitura juvenil desse conta de mergulhar nas sutilezas, na finura da prosa artística de um narrador genial.

 Porém, o próprio narrador me encorajava à leitura, resgatando-me nas voltas da escritura com previdentes invocações: caro leitor, leitor amigo, dona leitora, castíssimo leitor, leitor das minhas entranhas, leitora minha devota, desgraçado leitor. Os cuidados do meticuloso narrador  incluíam “linhas de repouso e preparação ao capítulo seguinte, bem como recapitulações do que havia dito no capítulo anterior, ou então um capítulo para explicar o anterior, sem contar o micro capítulo para puxar o leitor pela mão a fim de que não “caia no abismo” das reminiscências do narrador: “não faça isso, querida, eu mudo de rumo”.
  
 Nesse tempo, e ainda hoje, tenho especial prazer em copiar frases dos livros que leio. Por gosto de traçar a punho as passagens que fazem transbordar meu cálice.  Arrependo-me de não ter guardado os velhos cadernos de anotações literárias da juventude. Lá encontraria, copiado com letra caprichada, com caneta de tinta molhada,   a história     da criação, segundo um velho tenor italiano: “a vida é uma ópera”. Não que eu tenha entendido completamente o que copiei – ópera era uma coisa tão distante de Duas Pontes  como uma estrela no firmamento - porém, o trecho provocou-me “aleluias íntimas” – para usar palavras do próprio Bentinho. Este outro trecho, em que o narrador fala de sua imaginação solta, apoiado em idéias de Tácito:  neste particular, a minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavalo de Alexandre” lá estava também anotado.
 
Idem às palavras finais do capítulo  intitulado  Entre Luz e Fusco,  que  não só  copiei, como também muito suspirei. O que faz a  tenra idade, Regina?  Oh! Minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de São José, a buscar de aparência a investidura sacerdotal, e antes dela a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.” Dignas de minha caneta-tinteiro também foram as palavras ditas por Bentinho sobre a descoberta da paixão por sua amiga de infância: “ Eu amava Capitu! Capitu amava-me! (...) Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente também por ser a primeira”.  Também transcrevi o capítulo curto   intitulado “Amai rapazes!  O conselho serve para moças também e, sendo conselho sábio, nunca tive dúvidas em segui-lo à risca .

Não lembro de todas as passagens transcritas para o  meu antológico caderno, mas tenho certeza que passei para a letra cursiva boa parte do livro. Não só pelas “aleluias íntimas” mas também porque copiar era um modo de abrir clareiras de entendimento para o próprio gasto. 
 
  Nas leituras que fiz de Dom Casmurro na graduação em Letras, o livro foi cercado com “roteiros para dissecação da obra” – uma prática lamentável que abominei. Por sorte, me curei dessas leituras e hoje releio meu Dom Casmurro em paz sempre que a saudade de “uma varanda, numa tarde clara e fresca de novembro, na casa da Rua de Matacavalos” vem a mim.  Nunca me canso de ouvir  Bentinho contar sobre o seu    “duo terníssimo, o trio, o quatuor...” Ouço José Dias dizer o seu primeiro superlativo: amaríssimo”, e o último: “lindíssimo” ao vir, da janela, o céu azul, pouco antes de morrer.  Os ouvidos que  escutam são os de hoje, mas as emoções da primeira leitura jamais se perderam.