domingo, 10 de abril de 2011

Crônica de dias partidos

                                                                                               
                                                          TOCA DE ONÇA

Entre os lugares que mais prezo há um que freqüento com certa assiduidade e devoção: uma toca de onça abandonada. No começo a toca era bem menor. Não dava para acomodar meus loucos e fantasmas, e ficávamos nos acotovelando. Roedores também queriam tomar assento à mesa, e então fomos empurrando pra frente a toca com nossos passados até abrir essa clareira que tem hoje.
Na toca tem mais respiro do que fora. Fora, o que mais se vê é a enfermidade do oco, doença que advém de correntes e moldes e de certos compassos forçados prum lado só.
Elvira sempre aparece na toca. Chega plena. De ar. De certo lume que antigamente não se via. Bebe água com tanto ruído que chega a espantar os besouros testas-pretas que vão se enfiando terra adentro. Na toca pode-se ser esganado por qualquer coisa, principalmente pela vida. Elvira sempre foi esganada por liberdade. Foi por causa das correntes e dos moldes que ela saiu de casa numa manhã de junho. Ficar era um tipo de desistência. Vida pouca ou encolhida arrebenta, sopra a alma pra algum ermo. Isso considerou Elvira, e rufou mundo afora. Mirtes gritou atrás: “ só volte, se se endireitar!”Nunca mais voltou. Presumo que nunca se endireitou, felizmente.
Ela quase não fala, só bebe água como quem tem febre. Não traz ao ombro a echarpe verde-água, mas ainda faz o mesmo gesto de afastá-la com a mão direita a todo instante. “lembra das latas de mantimentos que você areava e areava e depois botava cravo-da-índia pra perfumar, e dos ossinhos de galinha que você roía até o fim?” –pergunto e ela sorri com as várias bocas que sempre gostou de ter.
Na toca não há pressa pra nada, por isso, não falamos ainda sobre o que ela fez da vida dela depois que saiu de casa. As notícias que chegavam sobre ela eram contaminadas. O certo é que dizimou as correntes e se esparramou pra fora de todos os moldes, deixando perplexas as mulheres direitas, mas, porém, todavia infelizes do lugar.
As mulheres sem pele chegam pela madrugadinha. Ivone, a que brilhava panelas dia e noite vem também. Brilhava e botava no sol para secar e pegar mais brilho. Passava a esponja pra lá e pra cá do medo, nos anos perdidos em que apanhou do marido. Quando se livrou dele, calçou os sapatos da loucura e anda rodopiando mundo afora. Dias em que nem espero aparece na toca. Ela é braba mas é também de seda e conta sobre os modos que inventou pra fazer crescer de novo a pele perdida.
Sendo que na toca não há pressa, Breno chega só com as mãos e deixa o corpo para chegar depois. As mãos dele têm o jeito de salvar o mundo de uma planta. Vim a conhecê-lo melhor na toca, talvez porque ele se mostre mais ou, então, porque na toca ajunto mais do que espalho. Ele quase nunca fechava a boca, sempre ocupada em mastigar algum alimento. Devorava arrobas de maçãs noite adentro. Não tinha fundo por causa de um oco acumulado desde antes de nascer. Não o vi roer nada por aqui, mas notei que olha com interesse para certas raízes que cruzam a toca. Raízes nutrem até fundo falso.
Já me acostumei a repetir as conversas porque ele se distrai facilmente e pergunta: “como foi mesmo que você contou?”. Não me importo de repetir porque acho bonito o jeito que ele arruma as mãos pra ouvir pela segunda vez. Breno foi encontrado morto, as mãos segurando um livro de latim – diz que queimaram o livro no forno de assar o pão.
Quando me explica os nós cegos que pergunto, ele espalma as mãos dum jeito tão nunca visto que não sei se ouço a explicação ou contemplo as mãos dele. Me apresenta Doralice e Albino. Breves cumprimentos e o silêncio. Principiou o coral de sapos. Hora de devoção alta na toca.