terça-feira, 22 de março de 2011

Refrega


Saí pelos fundos, nem deu tempo de pegar minha coleção de pedras da vesícula no dia em que migrei de Capão Grande. Do lado de lá ficava o morro e era alto. Dum ponto em diante baixa um céu sobre o morro, e fica uma passagem estreita e sem ar que é preciso atravessar para escapar das cobras que rápido investem. O céu é de material resistente e pra lá da passagem não há garantia de claridade.

A Irene não quis vir, disse que não tinha mais calcanhar e estava esperando as tochas que iam colocar no portão para ela  ganhar o prêmio na arca da sorte. Convidei a Tere da Lapa, mas ela não ia deixar a cadeira de balanço. Com falta de rumos os olhos também se habituam.

Deixei meu pau de matar cobras atrás da senha que não decorei. Era visto que ia precisar. De encontro ao medo profundo o céu vira deserto. Eu tinha plantado uma árvore das mais frondosas. Veio um raio e rachou-a de alto a baixo. Virou carvão o que era promessa. “As passagens estreitas são custosas” – a Rutona comentou quando falei que não precisava levar tanta rapadura.

Encontrei uma mesa posta numa altura do caminho. Iguarias e frutas em quantidade. “posso comer uma fatia de abacaxi?” – perguntei ao guardião da mesa. “não _ ele disse seco. Essa mesa é pra Lúcifer e ele está sempre chegando.” “Só uma jabuticaba, então” _ insisti. “também, não, são as preferidas dele.” E se eu falar com ele?” “nem assim; ele tapa os ouvidos com cera.” Não há de ser nada. Um dia volto e trago a rosa espacial. De vampiros e sorvedouros não se escapa sem refrega.

Desvio o curso de meus propósitos para guardar meus pés de multiplicar distâncias. Levo de arrasto as impressões que não dissolvi. Amantina me entregou uma pedra de rio. “É benzida” _ ela disse sem dentes e sem paisagens. Afastou-se curvada das trouxas pesadas, e foi tecer uma mortalha. “Juvita não voltará com vida” _ falou enrolando uma flor de plástico. Quando era guardadora de porcos, Juvita entrava em casa silenciosa mas sem desespero. Um dia levantou pela manhã e não reconheceu seu vulto no vidro do guarda-louça. Nunca mais voltou para si mesma.

“Sinhana, você acha que destino é coisa sem critério?” Sabe o que vão fazer com os restos mortais de Zulmira depois que depredaram o túmulo?” _ Amantina me pergunta quase gritando. “Ora, Amantina, sobrou pouca coisa: uns ossos da canela, do crânio e uns restos de pano mortuário.”

A mortalha vai ficando adiantada no colo de Amantina. Antes que anoiteça é bom verificar o que de lícito o dia imprimiu. Pra frente é terra de banhado. Foi na beira do charco que encontrei Amantina. Vínhamos de rolar pedras. A beira do charco ainda é escura do sangue de nossos pés. Os marrecos percorrem o charco sem saber que pisam em nossos rastros antigos.

“Você não perde o costume de rolar pedras” – ela me falava às vezes, como se ela, pedras não rolasse. “Não vou durar muito” _ dizia olhando prum ponto de sua dor silenciosa. _ “Também, pra quê? Já enterrei todos. Agora só falta Juvita. “Você tem 52 anos, Amantina, ainda se lembra?” “Não, não lembro mais.”_ ela diz e vai colocar veneno pros ratos. De tempos em tempos abre uma compota de pêssegos e essa é a sua maior alegria.

“Será que este monte de feno que carrego para os cavalos tava no meu destino, Sinhana?” “ O feno, não sei, mas o charco tava” _ respondo me debruçando no começo da arrebentação. “Largue tudo e me siga, Amantina” _ uma vez convidei. _ “Há de haver um buraco onde possamos tecer nossa mortalha gasosa.” “onde, Sinhana?” Até hoje penso na resposta que não deu tempo de procurar porque Amantina recolheu-se a uma semente de uva.

Constato pelo canto dos sapos que estou atrasada em enigmas de meio de estrada. Não me foi dado o percebimento fácil. Clarões não me assistem de pronto. Por outro lado, vejo tantos desperdícios de clarões. Tivesse me aconselhado com Baba Yaga em dias que longe vão, de nada serviria; os clarões batem onde bem querem. É tarde baixa em minha resistência em inventar uma forma. Faço um guarda-sol com folhas de embira. Pra frente é a cova dos leões.

Do livro Pedras Soltas ( EdUFSC, 2006)