quarta-feira, 11 de maio de 2011

O outro campo


O campo era aquele sim, mas não era minado. Afogam tudo que não couber na equação. A flor amarela não tinha fuligem. Pelo caule da erva-de-são-joão há uma saída, talvez para alguma vertente. Escondi o campo numa panela de barro antiga como eu. Lacrei bem a tampa e perdi o jeito de abrir.
Se puxo o outro campo diante de mim, a tarde fica repentinamente clara e posso catar pedrinhas entre as estações. Se, feito uma mulher que chacoalha a toalha xadrez à janela, chacoalho o campo, caem ossos de dragão, restos de deuses fracos e pernas de serelepes. É então que largo meu mais longo suspiro pelas mulheres do Zimbábue.
Eu ia fazer vigília à beira dos contornos. Circulei-me de lilás para não sair sem agasalho, pois está fazendo muito frio e pode nevar. Não se veem amoras pelo campo; só pão envenenado. É um pão doce, de feições boas, e cheira bem, mas pode matar sem que se perceba. Contém veneno verde-escuro que seca seivas e óleos essenciais; contudo, come-o quem quer ou quem não sabe que não quer.
Fez-se manhã e tarde e o araçá do campo não cresceu nem crescerá nunca mais. Nasceram tantos cardos que não tenho onde pisar, mas tenho amor pra receber, as palavras é que estão em branco e o meu desejo desidratado.
Não é de ontem este tremor no curso de meus descobrimentos; a que me vê do espelho é um clone que me persegue por onde cruzo. Revira-me a casa toda e não faz caso algum dos meus degredos. Rola de rir dos presságios tortos que me sobrevém em série.
Entretanto, me acontece de ser feliz durante uma tarde inteira: nem crateras, nem margens se afastando pra longe, nem os pulos da noite se adiantando. É quando, pelo campo afora, as almas dos animais que já morreram vêm passear. Alma de animal falecido tinge-se de tudo que é cor. Os gansos são os mais decolores e os cavalos os mais engraçados, em petit-pois. Não permitem nem em aceno serem cavalgados. Coice de alma de cavalo é a coisa mais elegante que já tenho visto. Fora, claro, a elegância de Isaura, aos 80 anos, na passeata das agricultoras, marchando com uma bandeira enorme, rindo para mim, eu parada na calçada, com dentes e casa quitada.
Viver era para ser simples como brincar de caça-palavras com escorpiões. Se eu tivesse a grandeza das destaladeiras de fumo, cantaria o pisa-pilão sem nódoas e temperaria as panelas com alguma devoção. Era para ter vivido até o canto das curucacas, fui adiante e me sobreveio esta diarada omissa. O que sei é que nenhum polissílabo vale a pena nem que seja paralelepípedo.
Enquanto a serenada silenciosa cai no campo cresce o abismo no meu olho. Meu olho cheio de abismo suga a erva-de-são-joão: tenho em mim uma saída, só não sei pra onde.

2 comentários:

  1. Perfeito, Eloí...Lindo!
    Essas descrições de paisagens misturadas á busca de saídas me lembram Sarapalha, São Marcos, alguns textos de Sagarana, enfim.

    E esse final:tenho em mim uma saída, só não sei pra onde...poderia ter sido escrito sobre meu momento.
    beijo.

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  2. Elói. Virei seu fã. Amo o impressionismo e até arrisquei-me a tecer uma crônica sobre uma pintura de Van Gogh. Convido-lhe a uma visita a meu blog (http://cronicandocomvoce.blogspot.com. Estarei sempre aqui.
    Abraços!
    Kenny Rosa

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