sábado, 22 de janeiro de 2011

Floradas


                                                       
Os pessegueiros me davam tudo que eu precisava para compor as tardes de minha meninice; as flores mágicas de nascença, os frutos deliciosos, os galhos para as moradias inventadas, os caroços que, quebrados, libertavam uma amêndoa sempre no ponto.
Qualquer janela que eu abrisse dava para os pessegueiros. A casa era cercada por eles. Nasciam de caroços jogados aqui e ali, ao acaso.
Havia as solidões, a dor que nunca acabava de doer, as despedidas, a falta, mas havia também os pessegueiros em flor, e era para eles que eu me mudava, em busca da trégua que a beleza impõe às horas amargas deste mundo.
Todos os anos as flores de pessegueiro viam as geadas do lugar. Um dia, viram a neve e eu vi as flores transidas de frio, flores tão cor-de-rosa e um frio tão branco. Alguns galhos pendiam até o chão e nunca mais se levantavam. Centenas de frutos nunca veriam a luz do sol.
As abelhas também se rendiam aos encantos da florada dos pessegueiros, porque abelha não quer só néctar. Borboletas, colibris, joaninhas de raro vôo não queriam cálices mais luminosos nem mais suaves.
Devíamos nascer das flores; eu nasceria da flor de pessegueiro e minhas mãos teriam sulcos por onde correriam rios com seus peixes; em meus cabelos de liquens, as rãs viriam morar, de meus ouvidos cairiam cipós por onde passeariam centopéias, corujas fariam vigília em meus braços de algas estendidos.
Prima Elis e Lolô vinham me visitar, e então brincávamos cirandas debaixo das floradas. Nem notávamos as tardes passando por nós, a estação indo embora, e os frutos apontando na meia volta, volta e meia do cirandar, nossos pés incandescentes, cascudos, pura terra, outros pés, de outro mundo.

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