segunda-feira, 30 de março de 2009

DENTRO DO CAROÇO

Perdi o medo de morrer. Seria perfeito, se não tivesse adquirido o medo de viver. São cem as portas: que chave serve em que porta, Sra. Mulher do Barba Azul?
Quando os dias ficam muito miudinhos, tão miudinhos que caberiam numa semente de petúnia, eu não sei que rumo tomar. A gente nem vê quando cai das nuvens direto na pergunta do Sr. Immanuel Kant: “O que devo fazer?”. Por ora sei que devo ir roendo a vida até alcançar o caroço. De tempos em tempos a parte roída se restabelece e o caroço volta a cobrir-se de massa volumosa.
Um caminho de lesma tem lá os seus pormenores. “O que me é permitido esperar?” é outra pergunta do Sr. Kant. A resposta está dentro do caroço.
Me livre Deus, Nosso Senhor, de botar de novo meus pés na casa da Rua XV de Novembro, 350! Não poderia suportar uma rotina de estômago e sono, mais a goma dos lençóis, das toalhas, dos sentimentos, dos calcanhares, como convinha a gentes de finos modos e requintada tradição. De aparências. Gente estranha aquela! O inverno saía-lhes das entranhas. Inverno rigoroso de bater os dentes.
As mulheres tomaram o Banco de Boston; isso é de hoje. Ontem, em 1940, uma mulher chamada Ursulina Silveira tomou o púlpito de uma igreja na hora em que o pregador falava mal das mulheres viúvas e separadas que não dão exemplo de virtude cristã; ao contrário, dão-se ao desfrute da vida. Ursulina dava-se ao desfrute. Roía a vida que dava gosto de ver!
Entrando abril vou visitar a velha Sofia, que não vejo desde que ela voltou do passeio à gruta das corujas. Ela vê cavalos voando como gafanhotos à boca-da-noite. Isto já um outro modo de libertar o de dentro do caroço.
Quando soar a sétima trombeta, haverá grande alarido, bem sei, mas Peter e eu não interromperemos nossa conversa sobre entrelinhas e salteados, cirandas cegas, grãos de passagem e concessões ao gesto fixo.
Deixe de lado o que eu disse; o que importa mesmo é que cavei um túnel que vai dar numa cantiga luminosa. Você pode vir comigo, se quiser; eu quero que você venha.


In Pedras Soltas ( EdUFSC, 2006)

2 comentários:

  1. Essa eu amo de paixão!
    Beijos da Pinpolha,
    ;o)

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  2. Essa Ursulina era de ver! Me lembrou uma tal, que bem poderia ser a sobrinha dela, que me contou que um dia estraçalhou um cabrito na cabeça de um ex-noivo!

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