quarta-feira, 11 de maio de 2016

Os riscos do bordado



Na alva percalina, no branco linho, ou no puro algodão a moça riscava os motivos escolhidos para bordar, consoante o seu desejo ou o desejo alheio.
Debruçada sobre a mesa de freijó, gastava dias alinhando os riscos do bordado. Botava em traços finos tudo o que desejava capturar no tecido. Só então sentava à beira da janela e, ponto a ponto, fazia surgir da ponta de sua agulha e do fundo de seu dedal os mistérios guardados nos riscos.
Cataratas do céu jorravam mais intensas se fossem chamadas em ponto cheio.

Fontes do abismo só em pontos rococós vinham a ela. Com que pontos atrair ao tecido as vindimas da terra e as flores das montanhas?
Um homem com belos olhos  procurou-a e pediu: borda-me a árvore da vida numa toalha de mesa.
_ Muitos dias começarão e declinarão sem que eu tenha terminado. Será conveniente
esperar? – ela perguntou ao homem e ele  consentiu na demora.
Principiou a bordar a encomenda pela manhã, em dia de terça-feira. Muitas terças-feiras chegaram e partiram e ela a puxar nas linhas sacrílegas a árvore da vida. Ficava tão exaurida que já não conseguia  conciliar o sono, os olhos pregados, as mãos em transe, não querendo parar nunca mais de bordar.

Começaram a aparecer no linho os pomos formosos, vermelhos como o homem pedira. Ao escurecer de um dia que lhe pareceu mais longo que os outros, tinha ,enfim, completado a obra. Entregou a toalha para o homem: a árvore da vida capturada.
Sobre a mesa larga de jacarandá ele estendeu a toalha. Todos os dias tirava um fruto da árvore e saboreava-o, revirando os olhos no prazer. Quanto mais frutos colhia, mais a produção vingava. Dividirei estes frutos com mais gente – pensou. Ninguém quis provar. Tiveram medo.
Uma mulher, de mãos distraídas e rotina por desfazer,  procurou a moça e disse-lhe:
_ Borda-me o destino em qualquer pano.

Dias e noites a moça bordou para a mulher. Viu a neve chegar e se despedir. Viu a dança das horas nas montanhas.  Viu flores transformando-se em frutos e tanta coisa mais viu debaixo do céu, sem capturar o destino. Fazia e desmanchava o bordado dezenas de vezes inutilmente: o destino não baixava ao tecido.
Destino é coisa ardilosa para se caçar, não devia ter aceitado a encomenda – pensava, enquanto tentava de novo com outros pontos, mais engenhosos. As linhas rebentavam. Ela servia-se de novas meadas e tornava ao lavor. O feitio do destino, enfim, se mostrava. Encorajada, avançava por uma noite, mas a desolação vinha pela manhã. Apagavam-se as linhas. Desmaiava o destino.

Declinou da encomenda. Não passaria a vida em lavores vãos. Borda-me, então,  o rio – disse-lhe a mulher.
A moça tornou ao tecido com grande ânsia. Traria o rio com a concha das mãos. As linhas sabiam da profundidade das águas. Dormia sobre o rio e acordava sobressaltada com a violência da correnteza. Com os olhos sonados ia lavrando as margens. Um dia o rio seguiu o seu curso e ela entregou-o à mulher. O rio era pouco para a sede antiga da mulher. Nunca, porém, secou.
Um viajante soube das mãos milagreiras da moça, procurou-a e pediu: “borda-me um campo de amoras”.
A moça lembrou das linhas de cor púrpura, que estavam no fundo do cesto de bordado. Estendeu as linhas sobre a mesa e contemplou-as. Brilhavam. Dariam viçosas amoras.

Todos os dias, a moça saía para o campo à procura das amoreiras carregadas de amoras, para laçá-las nas linhas púrpura. Amoreiras em flor ela  também laçava, para dar ao campo uns ares de promessa. O bicho-da-seda se nutre de folhas de amoras – pensou,  e fisgou-o numa laçada feliz.
Uma vez, extenuada de tanto laçar amoras, a moça feriu-se nos espinhos das amoreiras. Em certos pontos o campo tingiu-se de gotículas vermelhas.

Certa manhã, depois de laçar a última amora, ela avisou o viajante e ele veio buscar o campo. Era um dia de vento forte. As amoras tremeluziam  no campo de linho branco.
Livre da encomenda, a  moça sentou-se à beira da janela, suspirou e perguntou à aragem do dia: “o que vou bordar agora?” Foi  então que ela  tirou da gaveta uma toalha de rosto, alva como a neve, há muito, muito tempo guardada...

BOCHECO, Eloí Elisabete. Roda Moinho. Pernambuco: CEPE, 2011



sábado, 23 de novembro de 2013

Aos Retalhos*



Um não sei quê, que vem não sei de onde e sopra não sei como levanta as cinzas do
inevitável. A respiração fica difícil com tantos fantasmas por perto. Abro de par em par as janelas e bato palmas para espantá-los. Sempre funciona. Só os que moram no espelho não se incomodam com palmas nem com outro gesto qualquer. Alimentam-se da conspiração e querem, por força, dar as tintas. Pinto meu hall de entrada com as cores que escolho no catálogo de Donana, a mulher tigre, que comeu a vida pelas bordas e pelo centro, nunca beijou sapos e expulsou ogros com o cabo de vassoura.

A luz, em pessoa, vem a mim: o que acordou, cinza não era. O que se levanta dos confins do espelho me fita, em dúvida e, na dúvida, apunhala pela frente. Os dias são curtos para decifrar tantos contornos. Tremula um lenço branco na ponta de uma taquara. Trégua para eu ir ali ver se nasceram as sementes de tagetes que semeei e se o gato tomou o leite do pires. A taquara sou eu, caniço pensante a La Pascal. O vento pode derrubar, a chuva pode derreter, o acaso pode esmagar. Defendo-me como é possível a um caniço que tem a palavra como recurso e abrigo.

Cai neve no éter do espelho. Cai devagar, no justo tempo da brancura de meus fios de cabelos. Um frio antigo me percorre; punhais para  os dedos das mãos e dos pés descobertos. Enquanto a neve cai, boto meus óculos de grau e vou copiar um poema de Riner Maria Rilke em meu caderno de suprimentos básicos.

Na curva, o rio de espelho me alcança. Não há margens, só esquecimento. São as águas de aço abrindo as comportas do dia. O que não é aço é flor de narciso. O espelho vai me deserdando, passo a passo. Sobra um olho encardido que teima em acreditar nas  aleivosias das águas.
A que me fita tem abismos nos olhos. Aqui e ali faz sombra onde as vacas pastam magras. Ao longe, as saracuras gritam de alegria ou, talvez, de agonia pelo fim da tarde de junho. Entre as juntas das palavras ergo a minha morada e me recolho cedo porque faz  frio e vai cair geada na serra.
Aos retalhos também se vive, com certos limites,  é verdade, mas , nem por isso, com menos artimanhas  para enganar a morte.

 *Crônica selecionada para a Antologia SESC de crônicas,  no  Concurso Rubem Braga  (SESC/Brasília,  2012)

 

quarta-feira, 19 de junho de 2013

Letras que não voam: alfabetização em 1960

 
 
                                                                   UMAS FIGURAS
O carimbo pedagógico, hoje um recurso esquecido, já teve seus dias de glória nas escolas brasileiras.
A professora passava de carteira em carteira e ia deixando impresso, no canto da folha do caderno de linguagem, o desenho condizente com a sequência da cartilha do ABC. Em seguida, tínhamos que escrever a palavra correspondente até o final da página. Depois podíamos colorir a figura, e essa era a parte feliz do exercício, o recreio da repetição enfadonha.
O carimbo para ilustrar a palavra lenha vinha com uma velha - Inhá – arcada sob o peso de um feixe de lenha. Nhá se parecia com Tiabena, que morava em uma gruta no meio da mata e, vez ou outra, vinha à vila pedir ajutório nas casas. Diziam que fora escrava na casa dos Ferreira Santos. Alforriada, caíra no mundo,  sem eira sem beira, isto é, sem direitos.  Eu pintava o desenho de Nhá com todo o respeito: aquela não era uma figura qualquer – era Tiabena o tempo todo.
A letra a vinha ilustrada por um passarinho, ao pé do qual estava escrito ave. Pobre ave! Não voaria nunca: o exercício mecânico quebrava-lhe as asas. Bastaria uma senha qualquer e ela nos levaria para longe, por caminhos da imaginação. Porém, a escola de 1960 não estava para voos. Quem era, de onde vinha, para onde ia aquela ave? As perguntas libertariam o passarinho, mas, a repetição passiva da palavra mantinha presas as asas da ave e as nossas.
O carimbo para a palavra jarra me deixava com sede porque me fazia pensar em Q-suco de groselha, um refresco da época. Com lápis vermelho enchia a jarra dessa bebida, bem como os copos que a acompanhavam.
Na vez do m, o desenho era uma mala – com alça!  Por fora a mala trazia ma-me-mi-mo-mu e, dentro, os nossos medos da vara de marmelo no lombo, caso as letras não entrassem em nossas cabeças rapidamente. Lentidão era uma coisa que tresloucava alguns mestres de antanho. Até a mala estremecia quando a vara brandia na mesa de pinho. Como é que uma crianças se alfabetiza?  Essa pergunta ainda não havia nascido na época, estava guardada dentro da mala. Malas fechadas. Bocas fechadas. “Comos” e “porquês” trancados a chave.
O sapo do carimbo que ilustrava a letra s era familiar a todas as crianças do campo. As noites eram cheias dos cantos da saparia nos banhados, restingas, lagoas e poças d´água. Os batráquios eram velhos conhecidos das gentes de Duas Pontes.
A serviço da escola, o sapo era só uma figura muda. Quem é o sapo? Nunca o fizeram falar. Passou a vida de carimbo, mudo como as crianças, pensando que era mesmo só uma figura para fixar a letra s.
Nossos cadernos de linguagem eram pobres de espírito. Da primeira à última página, só se viam cópias e repetições, nenhum sopro de criação. Nunca vi cadernos mais sem voz do que aqueles. Nenhuma frase do caderno era de nossa própria lavra. As figuras dos carimbos eram uma espécie de broche a enfeitar as páginas. Pintadas com lápis de cor,  ficavam com uns ares de festa e chegavam a brilhar no meio das infindáveis repetições mecânicas.
Hoje em dia, felizmente, a alfabetização tem outros atrativos e, os carimbos, quando são usados, cumprem uma função mais lúdica e menos utilitária.  




segunda-feira, 12 de novembro de 2012

Minhas memórias de Dom Casmurro




Aos treze anos, quando li Dom Casmurro pela primeira vez, segui as pegadas do livro com os recursos de vida e de leituras que a idade me permitiu. A inexperiência, contudo, não impediu que tivesse amado o livro e que este se tornasse, desde então, meu livro machadiano preferido.

Foi na biblioteca que encontrei a obra completa de Machado de Assis. Não sei por que escolhi Dom Casmurro dentre os outros tomos de capa dura, na cor verde-escuro. Não me lembro de ter sido por indicação de outro leitor, e tenho certeza que não foi por obrigação escolar. A professora de Língua Portuguesa da escola era devota da biblioteca, insistia com ardor para que a frequentássemos, mas nos deixava livres para que encontrássemos  os “nossos” livros, ou que os livros nos encontrassem. Leitora apaixonada que era aquela mestra, despertava em nós a cobiça pelos tesouros que se podem arrebatar nas incursões pelas bibliotecas.
 
Mostrei à professora. o livro que havia retirado da prateleira e ela declarou rindo: “um primor!” Meus parcos recursos de leitura, na época, ( nem hoje são notáveis) não deram conta dessa declaração. O que fazia um livro ser um primor? A leitura juvenil foi atrás da história amorosa de Bentinho e Capitu. Seria exigência inócua ( a menos que eu fosse um leitor-prodígio) esperar que a leitura juvenil desse conta de mergulhar nas sutilezas, na finura da prosa artística de um narrador genial.

 Porém, o próprio narrador me encorajava à leitura, resgatando-me nas voltas da escritura com previdentes invocações: caro leitor, leitor amigo, dona leitora, castíssimo leitor, leitor das minhas entranhas, leitora minha devota, desgraçado leitor. Os cuidados do meticuloso narrador  incluíam “linhas de repouso e preparação ao capítulo seguinte, bem como recapitulações do que havia dito no capítulo anterior, ou então um capítulo para explicar o anterior, sem contar o micro capítulo para puxar o leitor pela mão a fim de que não “caia no abismo” das reminiscências do narrador: “não faça isso, querida, eu mudo de rumo”.
  
 Nesse tempo, e ainda hoje, tenho especial prazer em copiar frases dos livros que leio. Por gosto de traçar a punho as passagens que fazem transbordar meu cálice.  Arrependo-me de não ter guardado os velhos cadernos de anotações literárias da juventude. Lá encontraria, copiado com letra caprichada, com caneta de tinta molhada,   a história     da criação, segundo um velho tenor italiano: “a vida é uma ópera”. Não que eu tenha entendido completamente o que copiei – ópera era uma coisa tão distante de Duas Pontes  como uma estrela no firmamento - porém, o trecho provocou-me “aleluias íntimas” – para usar palavras do próprio Bentinho. Este outro trecho, em que o narrador fala de sua imaginação solta, apoiado em idéias de Tácito:  neste particular, a minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavalo de Alexandre” lá estava também anotado.
 
Idem às palavras finais do capítulo  intitulado  Entre Luz e Fusco,  que  não só  copiei, como também muito suspirei. O que faz a  tenra idade, Regina?  Oh! Minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de São José, a buscar de aparência a investidura sacerdotal, e antes dela a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.” Dignas de minha caneta-tinteiro também foram as palavras ditas por Bentinho sobre a descoberta da paixão por sua amiga de infância: “ Eu amava Capitu! Capitu amava-me! (...) Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente também por ser a primeira”.  Também transcrevi o capítulo curto   intitulado “Amai rapazes!  O conselho serve para moças também e, sendo conselho sábio, nunca tive dúvidas em segui-lo à risca .

Não lembro de todas as passagens transcritas para o  meu antológico caderno, mas tenho certeza que passei para a letra cursiva boa parte do livro. Não só pelas “aleluias íntimas” mas também porque copiar era um modo de abrir clareiras de entendimento para o próprio gasto. 
 
  Nas leituras que fiz de Dom Casmurro na graduação em Letras, o livro foi cercado com “roteiros para dissecação da obra” – uma prática lamentável que abominei. Por sorte, me curei dessas leituras e hoje releio meu Dom Casmurro em paz sempre que a saudade de “uma varanda, numa tarde clara e fresca de novembro, na casa da Rua de Matacavalos” vem a mim.  Nunca me canso de ouvir  Bentinho contar sobre o seu    “duo terníssimo, o trio, o quatuor...” Ouço José Dias dizer o seu primeiro superlativo: amaríssimo”, e o último: “lindíssimo” ao vir, da janela, o céu azul, pouco antes de morrer.  Os ouvidos que  escutam são os de hoje, mas as emoções da primeira leitura jamais se perderam.
 
 
 

quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ovo de bronze*


Um dia sem inspiração é como um ovo indez, de bronze. Parado sobre um móvel a olhar  para uma sala vazia.
De repente, um gato sem dono, desses que peregrinam pelos jardins, pula a janela e se atira numa poltrona. O mundo de ovo de bronze hesita. Todos os medos vêm à janela implicar com a claridade.
 O gato de nada faz conta e finge que dorme. Por que se atira sempre na mesma poltrona? Na única que tem flores no tecido. Pensa  que a poltrona é a continuação do jardim, o gato, que parece um pequeno tigre. Cada vez que pula de volta para o jardim, deixa sinais na parede. O ovo de bronze não choca nada e o gato ronca.
 Ao fundo, Vanessa da Mata está cantando a força que nunca seca – a da mulher com a lata na cabeça. Há um mês estou ouvindo cinco vezes por dia, ou mais, essa canção, na voz dessa cantora. Alguma coisa na letra ou na melodia me leva a ouvir de novo, novamente, outra vez. Não deve ser só porque a letra é forte e a melodia é mágica. Deve ser por causa do ovo de bronze.
Em certas horas as palavras voltam-se para si mesmas e tudo vira gesto. Os nomes secretos respondem aos chamados. O parado ferve. Até a figueira do jardim se cobre de glória. Nem havia reparado na quantidade de folhas novas.
Não saia às ruas hoje, vizinha da casa número 11. Este dia é gêmeo de outro que virá. Vai cair bala perdida do céu. Deixe para aviar a receita médica amanhã. Hipocondria pode esperar. A sua farmácia caseira já está saindo pelo ladrão. Tem alguma cor de pílula que a senhora não tem? As amarelas são alegres . Não confio nas marrons. Por que não troca as pílulas por kefir? Antes, porém,  sirva-me uma para dormir, das vermelhas, para combinar com paixão. Pílulas são lindas  e, às vezes, necessárias. Por causa do ovo de bronze.
O gato peregrino pula pra fora.  Sento-me  na poltrona ainda quente do corpo do felino. Não tenho a intenção de chocar o ovo de bronze, mas tentar não me custa.
 * Selecionado para a antologia de e -contos  Ficções & Gato Sabido 

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O outro campo


O campo era aquele sim, mas não era minado. Afogam tudo que não couber na equação. A flor amarela não tinha fuligem. Pelo caule da erva-de-são-joão há uma saída, talvez para alguma vertente. Escondi o campo numa panela de barro antiga como eu. Lacrei bem a tampa e perdi o jeito de abrir.
Se puxo o outro campo diante de mim, a tarde fica repentinamente clara e posso catar pedrinhas entre as estações. Se, feito uma mulher que chacoalha a toalha xadrez à janela, chacoalho o campo, caem ossos de dragão, restos de deuses fracos e pernas de serelepes. É então que largo meu mais longo suspiro pelas mulheres do Zimbábue.
Eu ia fazer vigília à beira dos contornos. Circulei-me de lilás para não sair sem agasalho, pois está fazendo muito frio e pode nevar. Não se veem amoras pelo campo; só pão envenenado. É um pão doce, de feições boas, e cheira bem, mas pode matar sem que se perceba. Contém veneno verde-escuro que seca seivas e óleos essenciais; contudo, come-o quem quer ou quem não sabe que não quer.
Fez-se manhã e tarde e o araçá do campo não cresceu nem crescerá nunca mais. Nasceram tantos cardos que não tenho onde pisar, mas tenho amor pra receber, as palavras é que estão em branco e o meu desejo desidratado.
Não é de ontem este tremor no curso de meus descobrimentos; a que me vê do espelho é um clone que me persegue por onde cruzo. Revira-me a casa toda e não faz caso algum dos meus degredos. Rola de rir dos presságios tortos que me sobrevém em série.
Entretanto, me acontece de ser feliz durante uma tarde inteira: nem crateras, nem margens se afastando pra longe, nem os pulos da noite se adiantando. É quando, pelo campo afora, as almas dos animais que já morreram vêm passear. Alma de animal falecido tinge-se de tudo que é cor. Os gansos são os mais decolores e os cavalos os mais engraçados, em petit-pois. Não permitem nem em aceno serem cavalgados. Coice de alma de cavalo é a coisa mais elegante que já tenho visto. Fora, claro, a elegância de Isaura, aos 80 anos, na passeata das agricultoras, marchando com uma bandeira enorme, rindo para mim, eu parada na calçada, com dentes e casa quitada.
Viver era para ser simples como brincar de caça-palavras com escorpiões. Se eu tivesse a grandeza das destaladeiras de fumo, cantaria o pisa-pilão sem nódoas e temperaria as panelas com alguma devoção. Era para ter vivido até o canto das curucacas, fui adiante e me sobreveio esta diarada omissa. O que sei é que nenhum polissílabo vale a pena nem que seja paralelepípedo.
Enquanto a serenada silenciosa cai no campo cresce o abismo no meu olho. Meu olho cheio de abismo suga a erva-de-são-joão: tenho em mim uma saída, só não sei pra onde.