sexta-feira, 3 de novembro de 2017

Almas de papel e tinta


Crônica contemplada no Prêmio Sérgio Farina, em São Leopoldo/RS, edição 2011


Desde que o descobri, há mais de meio século, o livro tornou-se meu par preferido em todas as estações da vida. Na alegria ou na ruína, não saberia viver sem este companheiro por perto. Refiro-me, especialmente, ao livro literário.
Tomar parte dos destinos inventados - “reais” enquanto transcorre a leitura – acompanhar a travessia dos personagens que se levantam de dentro  das palavras é,  para mim, um dos grandes baratos da literatura. Por horas, dias, meses, anos, é um gosto segui-los páginas  adentro, suas  almas expostas, às voltas com acertos, equívocos, aviltezas e tudo o mais que lhes cabe nas linhas e entrelinhas.

É o leitor quem assopra-lhes a brasa encoberta a fim de que se movam e    se cumpram como criaturas feitas de palavras. Atrás de si vão deixando marcas indeléveis, algumas à flor das palavras, outras fossilizadas nas entranhas do dito.
Basta o olho encontrar a primeira frase do livro  Quincas Borba: “Rubião fitava a ensaeada”, para o sangue literário começar a circular nas veias do personagem. Então é segui-lo da glória à decadência, parando para dar conta do espanto, das máscaras que caem,  das epifanias que resultam  da leitura desta obra excelsa de Machado de Assis.
Se alguns personagens tornam-se criaturas fictícias de prestígio, é por conta do leitor ( de notório saber ou não) que, ao descobri-los, proclama aos quatro ventos as emoções provadas durante o prazeroso  encontro. Não  só proclama como, também,  volta a visitar  às moradias inventadas que lhe são caras.

Em verdade, estas mágicas criaturas – os personagens – mudam-se do livro para as moradias espirituais do leitor e ali permanecem a provocar visões, e a virar e revirar o território íntimo, sem cerimônias: já então são de casa, não precisam pedir licença para nada. Sobem pelas escadas da imaginação, sentam-se à mesa, caminham pelo assoalho, teto, paredes; embrenham-se por regiões que o próprio leitor desconhece.

Dom Quixote, por sinal, há quatrocentos anos,  profetizou a própria glória e imortalidade: “Ditosa idade e século ditoso, aquele em que hão de sair à luz as minhas famigeradas façanhas, dignas de gravar-se em bronze, esculpir-se em mármores, e pintar-se em painéis para lembranças de todas as idades”.  Não sei de profecia que tenha se cumprido tão ao pé da letra como esta. Gravado a sonho, o Cavaleiro da Triste Figura continua a transitar pelas terras sagradas, a espada em riste contra os inimigos da imaginação.

Uma vez estabelecidos nos domínios primaciais,  os personagens viram almas e juntam-se à do leitor que fica, assim, povoado de almas e nutrido de recursos simbólicos para a travessia no mundo real,  mundo este que  oferece, o tempo todo, almas de plástico, sob medida,  no varejo e no atacado.

Se o leitor os põem em pé, os personagens não fazem por menos: são bons companheiros em dias de chumbo e treva. Alguns livros têm o dom da cura.  Tenho certeza que Orlando Furioso, de Ludovico Ariosto, e Metamorfoses, de Ovídio, pertencem a esta linhagem.
Os livros que realmente importam conseguem, como diz Edmond Rostand, “exaltar com o lirismo, moralizar com a beleza, consolar com a graça e, enfim, dar lições de alma” , ou nas palavras de Barry Lopes: “a tarefa da ficção é nos ajudar com discernimento e nos curar”. E nem importa se os personagens saem dos mosteiros da idade média, do mundo da cavalaria ou se são contemporâneos do leitor. O que importa é que sejam movidos à seiva artística.

Um amigo, que já partiu deste mundo,  me disse uma vez que “para a prática da leitura,  a vida é muito curta”, querendo dizer que uma vida não chega para ler tudo que queremos e, principalmente, reler nossos autores prediletos,  pois, como já foi dito, e eu repito, há livros que nunca terminamos de ler, porque são  inesgotáveis, como uma fonte eterna.








sexta-feira, 29 de setembro de 2017

Anônimo leitor

  

Bem cedo fui à varanda olhar a rua  amanhecendo. Passeei os olhos pelo terreno baldio em frente à minha casa e notei algo pendurado na cerca do terreno. Uma página escrita que, no dia anterior, não estava lá.
Desci a escada e fui conferir de perto. Era uma crônica de Rubem Braga, Flor-de-maio,  escrita em máquina de escrever – datilografada. Já li esta crônica datilografada, inclusive  eu mesma a datilografei algumas vezes para passar aos meus alunos, em outros tempos.  Porém, pendurada em uma cerca de terreno baldio nunca a tinha lido. Li como se a tivesse encontrado pela primeira vez. Escrita bela que cai na alma germinando. Uma peça muito linda que nos deixou o grandioso cronista Rubem Braga.
De volta do encantamento com a Flor-de-maio, me perguntei quem seria o leitor que tivera a brilhante ideia de compartilhar literatura através da cerca. A pergunta ficou no ar enquanto fui tomar conta da rotina.
  Na manhã seguinte, ao abrir a janela, vi que havia outra página na cerca. Larguei tudo e desci pra rua ver o que o leitor oculto deixara no varal. Desta vez deixou um poema de Camões – Para Tão Longo Amor Tão Curta a Vida. Um poema eterno. Um dos mais belos poemas de amor que já foram escritos na face da terra.
  Algumas pessoas passaram pelo varal, olharam e seguiram em frente. Outras  pararam para ler os textos. Uma senhora fez menção de levar a crônica de Rubem Braga, arrependeu-se e foi embora para seu destino. 
  O leitor oculto seguiu compartilhando suas páginas preferidas. Por vários dias, a  rua acordou literária,  com trechos de Graciliano Ramos, Paulo Mendes Campos,  Machado de Assis, poemas de Florbela Spanca, Gonçalves Dias, Emily Dinkson, Castro Alves, Manuel Bandeira.
O varal seguia firme até que veio uma chuva que durou dois dias. Não sobrou nada das páginas cuidadosamente datilografadas. As águas caídas do céu derreteram as palavras sublimes dos autores prediletos do anônimo leitor. Pensei que ele iria desistir depois de ver o estrago das águas em seu laborioso trabalho. Mas, me enganei. O leitor secreto continuou depositando páginas e páginas no varal.
Em uma das noites vi quando ele chegou em seu caminhar lento e trôpego.  De bengala e chapéu.  Deixou a bengala ao lado de um poste e o chapéu no chão. Tirou o chapéu! – estranhei.  Depois compreendi. Postar o texto no varal era uma cerimônia sagrada. Tirava o chapéu para seus autores prediletos. Em reverência. Por paixão pelas palavras de autores que lhe são preciosos e inesquecíveis. 
Agradeci à vida por existirem criaturas belas como este leitor que, na calada da noite, vem repartir os suprimentos literários que lhe ajudam a viver.


sexta-feira, 8 de setembro de 2017

Amizades da vida inteira



  Cristina e Virgínia partiram desta vida com poucos meses de intervalo entre a partida de uma e de outra. Ambas passavam dos noventa anos. Quando as conheci elas já eram amigas e foram amigas durante a vida inteira.
  Sempre que releio o poema de Cecília Meireles,  As Duas Velhinhas, lembro de Cristina e Virgínia. Tal como as personagens de Cecília Meireles, essas duas mulheres, na alta velhice, também tomavam café em “xicrinhas de porcelana” e falavam de suas lembranças. “Quando eu era menina,  na beira do rio.. ” – dizia Virgínia. “Quando eu era menina, corria no vento ...” dizia Cristina e teciam, juntas,  as memórias felizes de um tempo ameno, do qual tinham intermináveis saudades.
  Através dessas duas senhoras tive as primeiras e mais fortes lições sobre a amizade. Adquiri a ideia de que uma amizade, para valer a pena, teria que ser profunda e duradoura. Amizades assim vencem o tempo e a distância. Os amigos são companheiros nas travessias, nas horas alegres ou tristes que se alternam em nossa curta vida neste mundo. Quem já enfrentou grandes reveses sabe o quanto é encorajadora a mão terna de um amigo, estendida para nós em meio ao caos.
  O padre Antônio Vieira, em um de seus textos magistrais, fala do “amor fino”,  amor sem o viés interesseiro. Há muito “amor fino” nas amizades. Fineza capaz de gestos inesquecíveis de generosidade. Jamais esquecemos o amparo de um amigo em horas cruciais da existência.
  A vida real é cheia de amostras de amizades inspiradoras, não só entre humanos, mas também entre humanos e animais. Lembro o filme Para Sempre ao seu Lado, sobre a amizade de um professor com um cão, uma história de “amor fino” e notável delicadeza, que vale a pena visitar ou revisitar.
  Na literatura também encontramos amizades admiráveis como a de Tom Sawyer e Huck Finn, personagens de Mark Twain. Quando os conheci nas páginas de papel e tinta, fiquei impressionada com os laços de afeto que unem estes dois meninos literários. Os dois só só se separaram   durante o  tempo em  que  Huck teve que simular a própria morte para fugir ao pai violento. Na maior parte do tempo Tom e Huck  andam juntos pelas encostas do sonho, cúmplices nas aventuras, nas artes da imaginação, no amor pela liberdade, no prazer da invenção.
A diferença entre os dois – Tom educado segundo a moral e os bons costumes burgueses e Huck Finn educado pelo sol, a lua, as estrelas e o acaso – cria a mútua admiração: o primeiro tem a experiência e a coragem de quem vive ao relento, e o segundo tem os saberes transmitidos por sua condição social privilegiada. Das amizades de papel e tinta esta é uma das mais encantadoras, com todo respeito à Dom Quixote e Sancho Pança, célebres amigos de todos os tempos.
Cito Tom e Huck porque é a amizade literária que conheço há mais tempo; a literatura é pródiga em exemplos de fortes amizades.
O amor fino de um amigo é uma dádiva. As amizades sinceras e limpas são instâncias de cura da solidão e de outros desmaios que nos acometem ao longo dos dias e noites deste mundo carunchado, mundo de tantos equívocos. Drumond já convocava: “ não nos afastemos, vamos de mãos dadas” .






quinta-feira, 31 de agosto de 2017

Doses de Sonho - Prêmio Leia Comigo! da FNLIJ em 2011

Para Ana Schirley Favero, queridíssima
mestra de leitura de minha juventude 


Ela era bem nova quando a vi entrar na classe do antigo ginásio da Escola Juçá Barbosa Callado, pela primeira vez. Usava uma saia enxadrezada em verde e bege e uma blusa amarelo-queimado. Trazia um arco de vidro nos cabelos e usava sandálias marrons de salto alto. Essa primeira visão dela permanece viva ainda que tenham se passado mais de cinquenta anos desde esse dia. Ela própria me diz que não se lembra mais de ter tido essas peças de vestuário e, no entanto, eu lembro tão bem.

Chegou com os braços cheios de livros: era sempre este o seu modo de chegar. Apresentou o livro-texto de Antônio Ravanelli, que usaríamos em sala. Até hoje procuro nos Sebos a coleção, para quinta a oitava séries, deste autor. Usava pouco esse livro, o didático. Era apenas um recurso a mais em seu estoque de feitiços para nos apaixonar pela leitura. Era uma mestra cheia de cuidados com a criação da memória literária de seus alunos. Tinha o formoso costume de ler poemas, crônicas e livros aos capítulos, em voz alta para a classe. Creio ter sido este o maior feitiço de todos. As palavras cresciam na voz dela – até um texto insípido do livro didático de antanho brilhava. Aquelas sessões de leitura me deram as primeiras noções intuitivas dos poderes das palavras, do quanto elas podiam ser arrebatadoras.
Ela própria se deliciava com a leitura que fazia. Não era só a apresentação de um texto: era a repartição de um sonho. Lia em transe, possuída, a muitos palmos do chão carcomido da sala de aula.

Entre as palavras abriam-se vãos mágicos que nos puxavam para o alto como ímãs. Por instantes, esquecíamos as carteiras riscadas, as vidraças em pedaços, a sala feia, o quadro de giz esburacado. Havia pontos em nós que faiscavam de possibilidades. Era como se ela dissesse, através de seus rituais de leitura: “o caminho do sonho é por aqui, crianças!”
Muitos textos que ela trazia para a classe eram datilografados em estêncil, na máquina de escrever, e impressos em mimeógrafo a álcool. Na folha branca, em letra azul, o poema, o conto, a crônica, o excerto da obra vinha a nós com muito capricho e cerimônia. Ela os entregava de carteira em carteira, depois dobrávamos e colávamos no caderno de linguagem.
Após este ritual de dobrar e colar o texto, ela fazia a primeira leitura. O Cajueiro, de Rubem Braga, na leitura dela, caía devagarinho sobre a casa do autor, com tal delicadeza que era impossível não se apaixonar pela árvore, mesmo morando numa região onde nunca se viu um cajueiro.

Com voz apaixonada, ela golpeava a rotina com a flecha luminosa da palavra literária. Esta saraivada de luz nos atingia em cheio e atiçava o desejo de ler e buscar outras leituras onde quer que estivessem.
Apresentou Cecília Meireles à classe com grande enlevo e intróito apaixonado pela vida e obra da escritora. Lia os textos da autora na altura e na maciez apropriadas às palavras de seda da escritora.
Por entre as letras azuis, na folha branca acetinada, surgia o Anjo da noite, o inesquecível guarda-noturno. Na visão poética de Cecília Meireles e na voz da mestra - sintonizada com a respiração da crônica - os passos do guarda ora se afastavam, ora se aproximavam. Em algum parágrafo ele apitava, em outro, um gato retardatário pulava o muro. Sob nossos pés, a rua, sobre nossas cabeças a noite profunda. O guarda-noturno, Anjo da noite, cuidava do sono das gentes. A mestra cuidava de nossa memória literária e abria ruas sem fim em nossa imaginação.

“Vamos ouvir Canção excêntrica”. "Ando à procura de espaço para o desenho da vida/em números me embaraço e perco sempre a medida"... Os versos caíam sobre nós. Os olhos da mestra perscrutavam as feições. O que seria excêntrica? Ela não explicou naquele momento, acho que para não esmaecer o clima lúdico. Ela era toda finura com a palavra poética. Quem precisava saber o que era excêntrico para voar com as asas que saltavam dos olhos dela, tão embriagados no instante lírico como os nossos? Mais tarde ela contou sobre o excêntrico. Entendi que ela própria era assim, de tanto amor pelas palavras. Amor excessivo. Benditos excessos os dela!

As leituras nunca aconteciam num dia marcado. Ela gostava de nos fazer surpresas. Podiam acontecer numa terça-feira calma, numa sexta em que caiu o muro da frente da escola, numa quarta em que o Rio Pelotas transbordou, numa segunda-feira de enormes saudades de alguém que partiu, numa quinta sem nada para comemorar.

Nossos ”corações inquietos e perturbados com a passagem e o tropel das coisas do mundo, umas que vão, outras que vêm, outras que atravessam", como diz no Sermão da Sexagésima, de Pe. Antônio Vieira, esperavam pelos finos repastos que ela ofertava.

Um dia trouxe um livro de Cecília Meireles que era, no formato, tal qual um caderno de desenho. Quando abriu e leu o primeiro poema fiquei atônita: não era um caderno de desenho: era um porta-jóias! A primeira jóia que brilhou foi um colar de coral. Nunca eu tinha visto um poema incendiar. As paredes da sala, há mil anos sem pintura, mergulharam em luminosidade. A profa. leu e releu deliciadamente. A cada leitura, as imagens ficavam mais nítidas, como se ela desse lápis-de-cor à voz e fosse desenhando o poema no ar. Via-se que a mestra era devota daquele colar. Devota do mesmo colar também me tornei.
Do porta-jóias caíam rubis: “Rolam rubis rubros do céu”. "Abre-se a romã/Abre-se a manhã”. Até o apagador, na beira do quadro, cintilava. As aulas eram noturnas, mas, dentro de nós, o sol brilhava.

A linguagem tinha um outro modo de dizer. Um outro semblante: mais vivo e mais luminoso. Para esse outro universo da linguagem a mestra nos levava para passear. Eram momentos de feriados da linguagem referencial. Ela sabia o quanto estes passeios podiam avultar nosso desejo de beleza e de liberdade.

A vida não precisava ser só o puro chão. Outro desenho era possível. "Uma pena a vida ser só isto!" Os versos de Cecília Meireles se aplicam bem aos dias de pobreza simbólica em que vivemos, tempo pródigo em atrativos para os olhos biológicos. A jovem mestra, pressentia que só os olhos biológicos não bastam: "não é bastante não ser cego para ver as árvores e as flores" – como lemos em Fernando Pessoa, seguido de perto por Mário Quintana em "uma vida não basta apenas ser vivida, também precisa ser sonhada." Havia outros modos de ler o mundo que fugiam ao óbvio, e isso ela mostrava ao nos conduzir pelos territórios lúdicos da imaginação.

Tenho saudades da moça com arco-de-vidro nos cabelos, que chegava sempre com os braços cheios de livros e lia, com voz apaixonada, seus autores prediletos, os melhores da literatura nacional e estrangeira. Ainda hoje, quando releio certos livros, ouço-a, ao fundo, ler passagens marcantes, diálogos, descrições. A voz dela ficou gravada a sonho e se mistura com poemas, contos, crônicas narrativas. Não poucas vezes paro para ouvi-la novamente e noto que a voz não envelheceu.

sexta-feira, 11 de agosto de 2017

Lavrado de palavras


Um poema de 1999, premiado no Concurso Lindolfo Bell: 


TERRA LAVRADA

O melhor de mim pulsa
nos sulcos da terra lavrada
com arado de bois.

Extensos milharais
enchem de verde-escuro
as minhas ausências.
O arado trinca
a armadura de pedra
dos meus sentidos.
Revolve raízes antigas
em meu tempo de papel crepom.

Rebenta um veio d’água
em minhas  insônias
e molha as sementes
de trigo e cevada
que reservei para a melhor safra,
aquela que nunca semearei.

A música do arado
atravessa a aragem ácida.
Pausa fresca nos tons fixos,
insistentes, dos refrões,
não por acaso, cínicos,
conduzindo o gado para
as pastagens de plástico.

Vai Barroso! Vai Malhado!
Já cai sereno em meu dia prensado. 

quarta-feira, 21 de junho de 2017

Minhas memórias de Dom Casmurro


Aos treze anos, quando li Dom Casmurro pela primeira vez, segui as pegadas do livro com os recursos de vida e de leituras que a idade me permitiu. A inexperiência, contudo, não impediu que tivesse amado o livro e que este se tornasse, desde então, meu livro machadiano preferido.

Foi na biblioteca que encontrei a obra completa de Machado de Assis. Não sei por que escolhi Dom Casmurro dentre os outros tomos de capa dura, na cor verde-escuro. Não me lembro de ter sido por indicação de outro leitor, e tenho certeza que não foi por obrigação escolar. A professora de Língua Portuguesa da escola era devota da biblioteca, insistia com ardor para que a frequentássemos, mas nos deixava livres para que encontrássemos  os “nossos” livros, ou que os livros nos encontrassem. Leitora apaixonada que era aquela mestra, despertava em nós a cobiça pelos tesouros que se podem arrebatar nas incursões pelas bibliotecas.

Mostrei à professora o livro que havia retirado da prateleira e ela declarou rindo: “um primor!” Meus parcos recursos de leitura, na época, ( nem hoje são notáveis) não deram conta dessa declaração. O que fazia um livro ser um primor? A leitura juvenil foi atrás da história amorosa de Bentinho e Capitu. Seria exigência inócua ( a menos que eu fosse um leitor-prodígio) esperar que a leitura juvenil desse conta de mergulhar nas sutilezas, na finura da prosa artística de um narrador genial.

Porém, o próprio narrador me encorajava à leitura, resgatando-me nas voltas da escritura com previdentes invocações: "caro leitor", "leitor amigo", "dona leitora", "castíssimo leitor", "leitor das minhas entranhas", "leitora minha devota", "desgraçado leitor". Os cuidados do meticuloso narrador  incluíam “linhas de repouso e preparação ao capítulo seguinte”, bem como recapitulações do que havia dito no capítulo anterior, ou então um capítulo para explicar o anterior, sem contar o micro capítulo para puxar o leitor pela mão a fim de que não “caia no abismo” das reminiscências do narrador: não faça isso, querida, eu mudo de rumo”.
  
 Nesse tempo, e ainda hoje, tenho especial prazer em copiar frases dos livros que leio. Por gosto de traçar a punho as passagens que fazem transbordar meu cálice.  Arrependo-me de não ter guardado os velhos cadernos de anotações literárias da juventude. Lá encontraria, copiado com letra caprichada, com caneta de tinta molhada,   a história     da criação, segundo um velho tenor italiano: “a vida é uma ópera”. Não que eu tenha entendido completamente o que copiei – ópera era uma coisa tão distante de Duas Pontes  como uma estrela no firmamento - porém, o trecho provocou-me “aleluias íntimas” – para usar palavras do próprio Bentinho. Este outro trecho, em que o narrador fala de sua imaginação solta, apoiado em idéias de Tácito:  “neste particular, a minha imaginação era uma grande égua ibera; a menor brisa lhe dava um potro, que saía logo cavalo de Alexandre” lá estava também anotado.

Idem às palavras finais do capítulo  intitulado  Entre Luz e Fusco,  que  não só copiei, como também muito suspirei. O que faz a  tenra idade, Regina?  “Oh! Minha doce companheira da meninice, eu era puro, e puro fiquei, e puro entrei na aula de São José, a buscar de aparência a investidura sacerdotal, e antes dela a vocação. Mas a vocação eras tu, a investidura eras tu.” Dignas de minha caneta-tinteiro também foram as palavras ditas por Bentinho sobre a descoberta da paixão por sua amiga de infância: “ Eu amava Capitu! Capitu amava-me! (...) Esse primeiro palpitar da seiva, essa revelação da consciência a si própria, nunca mais me esqueceu, nem achei que lhe fosse comparável qualquer outra sensação da mesma espécie. Naturalmente por ser minha. Naturalmente também por ser a primeira”.  Também transcrevi o capítulo curto   intitulado “Amai rapazes!  O conselho serve para moças também e, sendo conselho sábio, nunca tive dúvidas em segui-lo à risca .

Não lembro de todas as passagens transcritas para o  meu antológico caderno, mas tenho certeza que passei para a letra cursiva boa parte do livro. Não só pelas “aleluias íntimas” mas também porque copiar era um modo de abrir clareiras de entendimento para o próprio gasto. 
  
Nas leituras que fiz de Dom Casmurro na graduação em Letras, o livro foi cercado com “roteiros para dissecação da obra” – uma prática lamentável que abominei. Por sorte, me curei dessas leituras e hoje releio meu Dom Casmurro em paz sempre que a saudade de “uma varanda, numa tarde clara e fresca de novembro, na casa da Rua de Matacavalos” vem a mim.  Nunca me canso de ouvir  Bentinho contar sobre o seu “duo terníssimo, o trio, o quatuor...” Ouço José Dias dizer o seu primeiro superlativo: amaríssimo”, e o último: “lindíssimo” ao vir, da janela, o céu azul, pouco antes de morrer.  Os ouvidos que   escutam são os de hoje, mas as emoções da primeira leitura jamais se perderam.

quarta-feira, 11 de maio de 2016

Os riscos do bordado



Na alva percalina, no branco linho, ou no puro algodão a moça riscava os motivos escolhidos para bordar, consoante o seu desejo ou o desejo alheio.
Debruçada sobre a mesa de freijó, gastava dias alinhando os riscos do bordado. Botava em traços finos tudo o que desejava capturar no tecido. Só então sentava à beira da janela e, ponto a ponto, fazia surgir da ponta de sua agulha e do fundo de seu dedal os mistérios guardados nos riscos.
Cataratas do céu jorravam mais intensas se fossem chamadas em ponto cheio.

Fontes do abismo só em pontos rococós vinham a ela. Com que pontos atrair ao tecido as vindimas da terra e as flores das montanhas?
Um homem com belos olhos  procurou-a e pediu: borda-me a árvore da vida numa toalha de mesa.
_ Muitos dias começarão e declinarão sem que eu tenha terminado. Será conveniente
esperar? – ela perguntou ao homem e ele  consentiu na demora.
Principiou a bordar a encomenda pela manhã, em dia de terça-feira. Muitas terças-feiras chegaram e partiram e ela a puxar nas linhas sacrílegas a árvore da vida. Ficava tão exaurida que já não conseguia  conciliar o sono, os olhos pregados, as mãos em transe, não querendo parar nunca mais de bordar.

Começaram a aparecer no linho os pomos formosos, vermelhos como o homem pedira. Ao escurecer de um dia que lhe pareceu mais longo que os outros, tinha ,enfim, completado a obra. Entregou a toalha para o homem: a árvore da vida capturada.
Sobre a mesa larga de jacarandá ele estendeu a toalha. Todos os dias tirava um fruto da árvore e saboreava-o, revirando os olhos no prazer. Quanto mais frutos colhia, mais a produção vingava. Dividirei estes frutos com mais gente – pensou. Ninguém quis provar. Tiveram medo.
Uma mulher, de mãos distraídas e rotina por desfazer,  procurou a moça e disse-lhe:
_ Borda-me o destino em qualquer pano.

Dias e noites a moça bordou para a mulher. Viu a neve chegar e se despedir. Viu a dança das horas nas montanhas.  Viu flores transformando-se em frutos e tanta coisa mais viu debaixo do céu, sem capturar o destino. Fazia e desmanchava o bordado dezenas de vezes inutilmente: o destino não baixava ao tecido.
Destino é coisa ardilosa para se caçar, não devia ter aceitado a encomenda – pensava, enquanto tentava de novo com outros pontos, mais engenhosos. As linhas rebentavam. Ela servia-se de novas meadas e tornava ao lavor. O feitio do destino, enfim, se mostrava. Encorajada, avançava por uma noite, mas a desolação vinha pela manhã. Apagavam-se as linhas. Desmaiava o destino.

Declinou da encomenda. Não passaria a vida em lavores vãos. Borda-me, então,  o rio – disse-lhe a mulher.
A moça tornou ao tecido com grande ânsia. Traria o rio com a concha das mãos. As linhas sabiam da profundidade das águas. Dormia sobre o rio e acordava sobressaltada com a violência da correnteza. Com os olhos sonados ia lavrando as margens. Um dia o rio seguiu o seu curso e ela entregou-o à mulher. O rio era pouco para a sede antiga da mulher. Nunca, porém, secou.
Um viajante soube das mãos milagreiras da moça, procurou-a e pediu: “borda-me um campo de amoras”.
A moça lembrou das linhas de cor púrpura, que estavam no fundo do cesto de bordado. Estendeu as linhas sobre a mesa e contemplou-as. Brilhavam. Dariam viçosas amoras.

Todos os dias, a moça saía para o campo à procura das amoreiras carregadas de amoras, para laçá-las nas linhas púrpura. Amoreiras em flor ela  também laçava, para dar ao campo uns ares de promessa. O bicho-da-seda se nutre de folhas de amoras – pensou,  e fisgou-o numa laçada feliz.
Uma vez, extenuada de tanto laçar amoras, a moça feriu-se nos espinhos das amoreiras. Em certos pontos o campo tingiu-se de gotículas vermelhas.

Certa manhã, depois de laçar a última amora, ela avisou o viajante e ele veio buscar o campo. Era um dia de vento forte. As amoras tremeluziam  no campo de linho branco.
Livre da encomenda, a  moça sentou-se à beira da janela, suspirou e perguntou à aragem do dia: “o que vou bordar agora?” Foi  então que ela  tirou da gaveta uma toalha de rosto, alva como a neve, há muito, muito tempo guardada...

BOCHECO, Eloí Elisabete. Roda Moinho. Pernambuco: CEPE, 2011