quinta-feira, 15 de setembro de 2011

Saudades de Rubem Braga....

CAJUEIROS
A carta diz que a árvore caiu pela ribanceira numa tarde de ventania. A carta é da irmã mais velha de Rubem Braga e a árvore é um cajueiro, companheiro de infância do autor.
Na leitura apaixonada da profa., o cajueiro caía devagarinho, quase pedindo licença para tombar sobre a casa. Cada vez que a mestra  lia a crônica de Rubem Braga, ou cada vez que um aluno lia para a classe este texto, o cajueiro voltava a tombar, e era sempre com enorme delicadeza que o fazia.
A crônica informa que ele caíra meio de lado, como senão quisesse quebrar o telhado da casa. Eu nunca tinha visto um cajueiro de perto, (nem de longe), no entanto, tornei-me seguidora daquele cajueiro de tão boa educação, que me chegava pela palavra poética de Rubem Braga. Só muitos anos depois da leitura da  crônica conheci um cajueiro em caule, galhos e folhas, carregado de frutos. Era uma árvore exuberante, causou-me admiração, porém, meu cajueiro preferido ficou sendo, para sempre, o de Rubem Braga.
Anos mais tarde da leitura deste texto, repeti, com meus alunos,  a prática de ler crônicas em classe, aprendida com a mestra. Dentre o acervo selecionado para essas leituras, incluí O Cajueiro. Pela reação das crianças percebia-se que a crônica de Rubem Braga caía-lhes bonita na alma. Possivelmente terá ficado, junto com outros textos, como um grão vivo de memória.
Devido às mudanças de casa, perdi a antologia, organizada por Afrânio Coutinho, onde morava O Cajueiro. Uma amiga fez a gentileza de me enviar uma cópia do texto. Transcrevi-o com boa letra para uma folha branca de caderno escolar. Por necessidade de apertar de novo a mão de palavras a quem devo obrigação. Dobrei a folha em quatro partes e guardei no lugar mais digno que encontrei: um bauzinho de lata que fora de meu pai, onde ele guardou, até morrer, os certidões de nascimento dos filhos.
Não sei o que contribuiu mais para que o cajueiro de Rubem Braga se pregasse na memória feito um carrapicho: se as notas carinhosas do autor, ao falar da árvore sagrada de sua infância, se a leitura apaixonada de minha profa., se o som do cajueiro, caindo formoso na alma das crianças para quem li a crônica, se o fato de eu própria ter, naquele tempo, uma árvore de estimação – um pé de uva-japão, espécie de casa, ao relento, onde me abrigava com freqüência.  O fato é que o cajueiro, que caiu no quintal de Rubem Braga, numa tarde de setembro, carregado de flores, continua a tombar suavemente em meus quintais da memória.


quarta-feira, 31 de agosto de 2011

Ovo de bronze*


Um dia sem inspiração é como um ovo indez, de bronze. Parado sobre um móvel a olhar  para uma sala vazia.
De repente, um gato sem dono, desses que peregrinam pelos jardins, pula a janela e se atira numa poltrona. O mundo de ovo de bronze hesita. Todos os medos vêm à janela implicar com a claridade.
 O gato de nada faz conta e finge que dorme. Por que se atira sempre na mesma poltrona? Na única que tem flores no tecido. Pensa  que a poltrona é a continuação do jardim, o gato, que parece um pequeno tigre. Cada vez que pula de volta para o jardim, deixa sinais na parede. O ovo de bronze não choca nada e o gato ronca.
 Ao fundo, Vanessa da Mata está cantando a força que nunca seca – a da mulher com a lata na cabeça. Há um mês estou ouvindo cinco vezes por dia, ou mais, essa canção, na voz dessa cantora. Alguma coisa na letra ou na melodia me leva a ouvir de novo, novamente, outra vez. Não deve ser só porque a letra é forte e a melodia é mágica. Deve ser por causa do ovo de bronze.
Em certas horas as palavras voltam-se para si mesmas e tudo vira gesto. Os nomes secretos respondem aos chamados. O parado ferve. Até a figueira do jardim se cobre de glória. Nem havia reparado na quantidade de folhas novas.
Não saia às ruas hoje, vizinha da casa número 11. Este dia é gêmeo de outro que virá. Vai cair bala perdida do céu. Deixe para aviar a receita médica amanhã. Hipocondria pode esperar. A sua farmácia caseira já está saindo pelo ladrão. Tem alguma cor de pílula que a senhora não tem? As amarelas são alegres . Não confio nas marrons. Por que não troca as pílulas por kefir? Antes, porém,  sirva-me uma para dormir, das vermelhas, para combinar com paixão. Pílulas são lindas  e, às vezes, necessárias. Por causa do ovo de bronze.
O gato peregrino pula pra fora.  Sento-me  na poltrona ainda quente do corpo do felino. Não tenho a intenção de chocar o ovo de bronze, mas tentar não me custa.
 * Selecionado para a antologia de e -contos  Ficções & Gato Sabido 

terça-feira, 21 de junho de 2011

Decisão



Antes que chova, gele ou bata o vento, vou dar o fora. Já arrumei as malas mas não pus no corredor. Levo só o essencial, e não pretendo voltar, desta vez. Se voltasse, seria a quinta. Não quero recuperar coisa alguma, nem o tempo perdido. Basta-me o que sobrou e não sobrou nada. As panelas estão vazias. Não há o que requentar para o jantar.
Desta vez não vou olhar para trás nem por causa dos pessegueiros em flor. Paisagens não deveriam se fincar demais dentro da gente, assim como nenhum ato deveria ser tão longo que pudesse colar para sempre ao rosto a máscara.
A mala mais pesada é a que leva as faltas e mais tudo que não terei tempo de aprender. Uma vida é pouco para tantos entendimentos que preciso alcançar.
Coloquei ao fundo uma porção de sementes misturadas que pretendo separar com cuidado. Há ressurreições acontecendo por toda parte. “ E então será o tempo de todas as coisas”: Amarílis vindo, a filha dela também. As duas correndo há mil estações. Correm dos próprios corpos que ficaram estendidos na beira da estrada. Nem param para falar comigo. Os cabelos das duas cresceu tanto que já batem nos pés e brilham feito escamas de sereias. Quantas vezes elas já terão dado a volta aos mundos?
Não levo retratos que é pra não pegar a puxar pontas, dar nós no juízo sem necessidade, fazer recapitulações à força.
Um peregrino me alcança num ponto à frente e me reconhece das idas e vindas. Sabe até que levo uma mala de água e trevas. Certa ironia no olho dele me põe em dúvida sobre as providências que eu deveria tomar de ora em diante. Melhor é não tomar providência nenhuma e deixar tudo à ação de um dia atrás do outro. Saí do jogo levando meus dados, de modo que posso perder todos os trens e tornar a ocupar as horas sem exasperação.
Inesperadamente abre-se, como baga de feijão seca, a mala menor, e saltam de dentro meus modos de vida usados para atravessar pontes movediças e quetais. Nada mais do que concessões à mediocridade. Num simulacro não se vai nem pra frente nem pra trás. Teria me acostumado com alguma coisa parecida com felicidade. Adiamentos fermentam e reincidências enfraquecem.
Por enquanto, sento-me neste banco de madeira bruta. Que passem as estações, que passe tudo que tiver que passar. Nunca mais a viagem já viajada, nunca mais ímpetos pela metade. Entro na manhã indistinta como quem pisa em cascas de castanhas; especulações difusas, ramos nenhum. A luz que me abraça é razão de esperar.

quarta-feira, 11 de maio de 2011

O outro campo


O campo era aquele sim, mas não era minado. Afogam tudo que não couber na equação. A flor amarela não tinha fuligem. Pelo caule da erva-de-são-joão há uma saída, talvez para alguma vertente. Escondi o campo numa panela de barro antiga como eu. Lacrei bem a tampa e perdi o jeito de abrir.
Se puxo o outro campo diante de mim, a tarde fica repentinamente clara e posso catar pedrinhas entre as estações. Se, feito uma mulher que chacoalha a toalha xadrez à janela, chacoalho o campo, caem ossos de dragão, restos de deuses fracos e pernas de serelepes. É então que largo meu mais longo suspiro pelas mulheres do Zimbábue.
Eu ia fazer vigília à beira dos contornos. Circulei-me de lilás para não sair sem agasalho, pois está fazendo muito frio e pode nevar. Não se veem amoras pelo campo; só pão envenenado. É um pão doce, de feições boas, e cheira bem, mas pode matar sem que se perceba. Contém veneno verde-escuro que seca seivas e óleos essenciais; contudo, come-o quem quer ou quem não sabe que não quer.
Fez-se manhã e tarde e o araçá do campo não cresceu nem crescerá nunca mais. Nasceram tantos cardos que não tenho onde pisar, mas tenho amor pra receber, as palavras é que estão em branco e o meu desejo desidratado.
Não é de ontem este tremor no curso de meus descobrimentos; a que me vê do espelho é um clone que me persegue por onde cruzo. Revira-me a casa toda e não faz caso algum dos meus degredos. Rola de rir dos presságios tortos que me sobrevém em série.
Entretanto, me acontece de ser feliz durante uma tarde inteira: nem crateras, nem margens se afastando pra longe, nem os pulos da noite se adiantando. É quando, pelo campo afora, as almas dos animais que já morreram vêm passear. Alma de animal falecido tinge-se de tudo que é cor. Os gansos são os mais decolores e os cavalos os mais engraçados, em petit-pois. Não permitem nem em aceno serem cavalgados. Coice de alma de cavalo é a coisa mais elegante que já tenho visto. Fora, claro, a elegância de Isaura, aos 80 anos, na passeata das agricultoras, marchando com uma bandeira enorme, rindo para mim, eu parada na calçada, com dentes e casa quitada.
Viver era para ser simples como brincar de caça-palavras com escorpiões. Se eu tivesse a grandeza das destaladeiras de fumo, cantaria o pisa-pilão sem nódoas e temperaria as panelas com alguma devoção. Era para ter vivido até o canto das curucacas, fui adiante e me sobreveio esta diarada omissa. O que sei é que nenhum polissílabo vale a pena nem que seja paralelepípedo.
Enquanto a serenada silenciosa cai no campo cresce o abismo no meu olho. Meu olho cheio de abismo suga a erva-de-são-joão: tenho em mim uma saída, só não sei pra onde.

domingo, 10 de abril de 2011

Crônica de dias partidos

                                                                                               
                                                          TOCA DE ONÇA

Entre os lugares que mais prezo há um que freqüento com certa assiduidade e devoção: uma toca de onça abandonada. No começo a toca era bem menor. Não dava para acomodar meus loucos e fantasmas, e ficávamos nos acotovelando. Roedores também queriam tomar assento à mesa, e então fomos empurrando pra frente a toca com nossos passados até abrir essa clareira que tem hoje.
Na toca tem mais respiro do que fora. Fora, o que mais se vê é a enfermidade do oco, doença que advém de correntes e moldes e de certos compassos forçados prum lado só.
Elvira sempre aparece na toca. Chega plena. De ar. De certo lume que antigamente não se via. Bebe água com tanto ruído que chega a espantar os besouros testas-pretas que vão se enfiando terra adentro. Na toca pode-se ser esganado por qualquer coisa, principalmente pela vida. Elvira sempre foi esganada por liberdade. Foi por causa das correntes e dos moldes que ela saiu de casa numa manhã de junho. Ficar era um tipo de desistência. Vida pouca ou encolhida arrebenta, sopra a alma pra algum ermo. Isso considerou Elvira, e rufou mundo afora. Mirtes gritou atrás: “ só volte, se se endireitar!”Nunca mais voltou. Presumo que nunca se endireitou, felizmente.
Ela quase não fala, só bebe água como quem tem febre. Não traz ao ombro a echarpe verde-água, mas ainda faz o mesmo gesto de afastá-la com a mão direita a todo instante. “lembra das latas de mantimentos que você areava e areava e depois botava cravo-da-índia pra perfumar, e dos ossinhos de galinha que você roía até o fim?” –pergunto e ela sorri com as várias bocas que sempre gostou de ter.
Na toca não há pressa pra nada, por isso, não falamos ainda sobre o que ela fez da vida dela depois que saiu de casa. As notícias que chegavam sobre ela eram contaminadas. O certo é que dizimou as correntes e se esparramou pra fora de todos os moldes, deixando perplexas as mulheres direitas, mas, porém, todavia infelizes do lugar.
As mulheres sem pele chegam pela madrugadinha. Ivone, a que brilhava panelas dia e noite vem também. Brilhava e botava no sol para secar e pegar mais brilho. Passava a esponja pra lá e pra cá do medo, nos anos perdidos em que apanhou do marido. Quando se livrou dele, calçou os sapatos da loucura e anda rodopiando mundo afora. Dias em que nem espero aparece na toca. Ela é braba mas é também de seda e conta sobre os modos que inventou pra fazer crescer de novo a pele perdida.
Sendo que na toca não há pressa, Breno chega só com as mãos e deixa o corpo para chegar depois. As mãos dele têm o jeito de salvar o mundo de uma planta. Vim a conhecê-lo melhor na toca, talvez porque ele se mostre mais ou, então, porque na toca ajunto mais do que espalho. Ele quase nunca fechava a boca, sempre ocupada em mastigar algum alimento. Devorava arrobas de maçãs noite adentro. Não tinha fundo por causa de um oco acumulado desde antes de nascer. Não o vi roer nada por aqui, mas notei que olha com interesse para certas raízes que cruzam a toca. Raízes nutrem até fundo falso.
Já me acostumei a repetir as conversas porque ele se distrai facilmente e pergunta: “como foi mesmo que você contou?”. Não me importo de repetir porque acho bonito o jeito que ele arruma as mãos pra ouvir pela segunda vez. Breno foi encontrado morto, as mãos segurando um livro de latim – diz que queimaram o livro no forno de assar o pão.
Quando me explica os nós cegos que pergunto, ele espalma as mãos dum jeito tão nunca visto que não sei se ouço a explicação ou contemplo as mãos dele. Me apresenta Doralice e Albino. Breves cumprimentos e o silêncio. Principiou o coral de sapos. Hora de devoção alta na toca.


terça-feira, 22 de março de 2011

Refrega


Saí pelos fundos, nem deu tempo de pegar minha coleção de pedras da vesícula no dia em que migrei de Capão Grande. Do lado de lá ficava o morro e era alto. Dum ponto em diante baixa um céu sobre o morro, e fica uma passagem estreita e sem ar que é preciso atravessar para escapar das cobras que rápido investem. O céu é de material resistente e pra lá da passagem não há garantia de claridade.

A Irene não quis vir, disse que não tinha mais calcanhar e estava esperando as tochas que iam colocar no portão para ela  ganhar o prêmio na arca da sorte. Convidei a Tere da Lapa, mas ela não ia deixar a cadeira de balanço. Com falta de rumos os olhos também se habituam.

Deixei meu pau de matar cobras atrás da senha que não decorei. Era visto que ia precisar. De encontro ao medo profundo o céu vira deserto. Eu tinha plantado uma árvore das mais frondosas. Veio um raio e rachou-a de alto a baixo. Virou carvão o que era promessa. “As passagens estreitas são custosas” – a Rutona comentou quando falei que não precisava levar tanta rapadura.

Encontrei uma mesa posta numa altura do caminho. Iguarias e frutas em quantidade. “posso comer uma fatia de abacaxi?” – perguntei ao guardião da mesa. “não _ ele disse seco. Essa mesa é pra Lúcifer e ele está sempre chegando.” “Só uma jabuticaba, então” _ insisti. “também, não, são as preferidas dele.” E se eu falar com ele?” “nem assim; ele tapa os ouvidos com cera.” Não há de ser nada. Um dia volto e trago a rosa espacial. De vampiros e sorvedouros não se escapa sem refrega.

Desvio o curso de meus propósitos para guardar meus pés de multiplicar distâncias. Levo de arrasto as impressões que não dissolvi. Amantina me entregou uma pedra de rio. “É benzida” _ ela disse sem dentes e sem paisagens. Afastou-se curvada das trouxas pesadas, e foi tecer uma mortalha. “Juvita não voltará com vida” _ falou enrolando uma flor de plástico. Quando era guardadora de porcos, Juvita entrava em casa silenciosa mas sem desespero. Um dia levantou pela manhã e não reconheceu seu vulto no vidro do guarda-louça. Nunca mais voltou para si mesma.

“Sinhana, você acha que destino é coisa sem critério?” Sabe o que vão fazer com os restos mortais de Zulmira depois que depredaram o túmulo?” _ Amantina me pergunta quase gritando. “Ora, Amantina, sobrou pouca coisa: uns ossos da canela, do crânio e uns restos de pano mortuário.”

A mortalha vai ficando adiantada no colo de Amantina. Antes que anoiteça é bom verificar o que de lícito o dia imprimiu. Pra frente é terra de banhado. Foi na beira do charco que encontrei Amantina. Vínhamos de rolar pedras. A beira do charco ainda é escura do sangue de nossos pés. Os marrecos percorrem o charco sem saber que pisam em nossos rastros antigos.

“Você não perde o costume de rolar pedras” – ela me falava às vezes, como se ela, pedras não rolasse. “Não vou durar muito” _ dizia olhando prum ponto de sua dor silenciosa. _ “Também, pra quê? Já enterrei todos. Agora só falta Juvita. “Você tem 52 anos, Amantina, ainda se lembra?” “Não, não lembro mais.”_ ela diz e vai colocar veneno pros ratos. De tempos em tempos abre uma compota de pêssegos e essa é a sua maior alegria.

“Será que este monte de feno que carrego para os cavalos tava no meu destino, Sinhana?” “ O feno, não sei, mas o charco tava” _ respondo me debruçando no começo da arrebentação. “Largue tudo e me siga, Amantina” _ uma vez convidei. _ “Há de haver um buraco onde possamos tecer nossa mortalha gasosa.” “onde, Sinhana?” Até hoje penso na resposta que não deu tempo de procurar porque Amantina recolheu-se a uma semente de uva.

Constato pelo canto dos sapos que estou atrasada em enigmas de meio de estrada. Não me foi dado o percebimento fácil. Clarões não me assistem de pronto. Por outro lado, vejo tantos desperdícios de clarões. Tivesse me aconselhado com Baba Yaga em dias que longe vão, de nada serviria; os clarões batem onde bem querem. É tarde baixa em minha resistência em inventar uma forma. Faço um guarda-sol com folhas de embira. Pra frente é a cova dos leões.

Do livro Pedras Soltas ( EdUFSC, 2006)

sábado, 22 de janeiro de 2011

Floradas


                                                       
Os pessegueiros me davam tudo que eu precisava para compor as tardes de minha meninice; as flores mágicas de nascença, os frutos deliciosos, os galhos para as moradias inventadas, os caroços que, quebrados, libertavam uma amêndoa sempre no ponto.
Qualquer janela que eu abrisse dava para os pessegueiros. A casa era cercada por eles. Nasciam de caroços jogados aqui e ali, ao acaso.
Havia as solidões, a dor que nunca acabava de doer, as despedidas, a falta, mas havia também os pessegueiros em flor, e era para eles que eu me mudava, em busca da trégua que a beleza impõe às horas amargas deste mundo.
Todos os anos as flores de pessegueiro viam as geadas do lugar. Um dia, viram a neve e eu vi as flores transidas de frio, flores tão cor-de-rosa e um frio tão branco. Alguns galhos pendiam até o chão e nunca mais se levantavam. Centenas de frutos nunca veriam a luz do sol.
As abelhas também se rendiam aos encantos da florada dos pessegueiros, porque abelha não quer só néctar. Borboletas, colibris, joaninhas de raro vôo não queriam cálices mais luminosos nem mais suaves.
Devíamos nascer das flores; eu nasceria da flor de pessegueiro e minhas mãos teriam sulcos por onde correriam rios com seus peixes; em meus cabelos de liquens, as rãs viriam morar, de meus ouvidos cairiam cipós por onde passeariam centopéias, corujas fariam vigília em meus braços de algas estendidos.
Prima Elis e Lolô vinham me visitar, e então brincávamos cirandas debaixo das floradas. Nem notávamos as tardes passando por nós, a estação indo embora, e os frutos apontando na meia volta, volta e meia do cirandar, nossos pés incandescentes, cascudos, pura terra, outros pés, de outro mundo.